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Jogo duro

"O que nós estamos fazendo aqui é o cumprimento de alguns compromissos históricos que assumimos antes de sermos governo. No início do ano de 2001, no Instituto Cidadania, que era o Instituto do qual eu participava, nós resolvemos fazer um programa de segurança pública para o Brasil. Nós tínhamos chegado à conclusão de que não existia, no Brasil, um programa global que tratasse da questão da segurança pública.

E eu chamei, dentre outros companheiros, o Luís Eduardo Soares, e o companheiro Antonio Carlos Biscaia, o Roberto Aguiar e o Mariano para coordenarem esse programa.

Foram realizados alguns seminários pelo Brasil afora, ouvimos praticamente todos os segmentos da sociedade que tratavam, direta e indiretamente, da questão da segurança pública. Fomos à favela e começamos o primeiro debate pelo Jardim Ângela, que era tido, naquela época, como o lugar mais violento de São Paulo. Depois fomos ao Ministério Público, depois aos governos dos Estados, à Polícia Militar, à Polícia Civil e à Polícia Federal. Ou seja, não houve nenhum setor que nós não ouvíssemos para elaborar o nosso programa.

Depois desse programa pronto, no lançamento, e na entrega dele ao Presidente da Câmara, hoje o Governador Aécio Neves, nós tivemos a certeza de que estávamos diante do mais importante programa de segurança pública já feito no Brasil. Se seria ou não possível executá-lo, dependeria primeiro do governo, e, segundo, da sua habilidade e vontade política para tratar a questão da segurança pública como prioridade. Em terceiro lugar, era preciso que os elaboradores do programa ganhassem as eleições para poder executar o programa.

E quis Deus que, depois de 3 eleições, eu fosse eleito Presidente da República, portanto, eu sou um homem, meu caro Paulo Hartung, muito feliz. Eu acordo todo dia com aquela mesma brincadeira que eu fiz durante a campanha. Eu estou numa fase de "Lula Paz e Amor", eu estou de bem com a vida.

Primeiro, porque acredito que seja possível cumprir cada meta que eu falei durante as eleições. Umas serão mais difíceis, outras serão mais fáceis, algumas deixarão companheiros e companheiras descontentes pelo Brasil afora, mas faremos uma por uma as coisas que prometemos durante a campanha.

Eu sempre achei que o grande problema do Brasil era o fato de a elite brasileira não conhecer o país, ou pelo menos a elite que o governava. Se vocês pegarem a agenda dos presidentes da República, independentemente do partido a que pertenceram, vocês vão perceber que o Presidente da República mora em Brasília, de vez em quando ele volta para o seu Estado natal, de vez em quando vai ao Rio de Janeiro (ninguém é bobo de deixar de ir ao Rio de Janeiro) de vez em quando vai a uma capital participar de um ato solene e volta para Brasília.

Acontece que este país é tão grande, é tão heterogêneo, que se um Presidente da República não se dispuser a andar esse país ao invés de ficar preso num gabinete atendendo apenas à demanda de quem consegue furar a agenda, ele terminará o mandato sem conhecer a cozinha da sua casa. E o governante que não conhece a cozinha da sua casa não conhece a sua casa.

A minha casa é esse país imenso, de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, na sua grande maioria abandonado. O último Presidente da República que viajou o Brasil chamava-se Juscelino Kubitschek , que tomou posse em 1956, portanto faz muitos anos.

Não é apenas aqui no Estado do Espírito Santo que há 14 anos um Presidente não vinha. Tem Estado onde eles nunca foram, tem Estado que nunca conheceram, e nunca se interessaram em conhecer, porque a elite dirigente brasileira gosta mais de Paris, de Londres, de Roma, do que do próprio Brasil.

E aí entra a questão da segurança pública. Historicamente se pensou em discutir a segurança pública no Brasil, achando que o resultado seria dado pela quantidade de policiais, cada vez mais truculentos, que se colocava nas ruas muitas vezes sem saber distinguir o que era um combate ao criminoso de uma greve de trabalhadores feitas nas ruas desse país.

A ponto de chegarmos a uma situação em que, de um lado a Polícia Civil não conversava com a Polícia Militar, que não conversava com a Polícia Federal, que não conversava com as Forças Armadas. Era como se fosse um time de futebol, onde cada atacante jogava para si, e não percebia que o jogo é um esporte coletivo e que quanto mais você passar a bola para o seu parceiro, mais chance você terá de marcar o gol. E quanto mais você jogar sozinho, mais chance você tem de perder a bola.

A gente vê muito na televisão, e eu uso o futebol porque todo mundo, no Brasil se sente um pouco técnico de futebol. E de vez em quando a gente percebe um jogador que pega a bola, enquanto há quatro ou cinco companheiros do lado dele, livres e melhor posicionados, esperando a bola. Ele desembesta a correr para um canto, vai até a linha de fundo, cansa, perde a bola e volta. E ainda cai para que o juiz lhe dê uma falta, e ainda reclama daquele. Ou seja, esse jogador não é legal.

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Revista Consultor Jurídico, 22 de abril de 2003, 20:49

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