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Cenas metralhadas

Saiba o que pensa o coronel Ubiratan sobre o filme Carandiru

As cenas exibidas no filme Carandiru são injustas, irresponsáveis e covardes. A opinião é do deputado Ubiratan Guimarães -- coronel que chefiou a Tropa de Choque da Polícia Militar, em outubro de 1992, responsável pelo massacre de 111 presos na Casa de Detenção -- sobre o filme do diretor Hector Babenco, que estréia esta semana. Considerado pela justiça o maior assassino da história do Brasil, Ubiratan queixa-se que não foi ouvido para a produção do filme.

O deputado do PPB disse estar indignado com o filme baseado no livro do médico Drauzio Varella. "Eu assisti a algumas cenas que só ouviu o lado dos detentos e dos presos, sem ouvir sequer qualquer policial. Eu, que fui o comandante da operação, já fui julgado e condenado e estou aguardando um recurso, não fui ouvido", afirmou o deputado durante discurso na Assembléia Legislativa de São Paulo.

O coronel, condenado a 632 anos de prisão, diz ter receio de que as cenas do filme influenciem os jurados que julgarão os outros PMs. "Pergunto: se um dos jurados vir essas cenas e amanhã vier a julgar um daqueles homens que estavam comigo, ele já virá pré-concebido por ver a ação da Polícia Militar como violenta".

No discurso, ele citou alguns exemplos de mortes que considerou eficazes no combate ao crime.

Discurso suicida

A pré-estréia de Carandiru aconteceu nesta segunda-feira (7/4) no shopping Jardim Sul. Lá compareceram a prefeita Marta Suplicy, muitos jornalistas e grande parte do elenco. Projetado simultaneamente em quatro salas, a obra foi demoradamente aplaudida.

O discurso do condenado "coronel" Ubiratan ainda era desconhecido pela maioria, mas foi bem representado pela crítica da revista Veja que editou o texto intitulado "Uma decepção chamada Carandiru". A publicação usou o espaço destinado à apreciação do filme para repetir, em um texto cheio de truques, o discurso subliminar que mais sucesso faz junto à inteligência econômica do país: a de que bandido bom é bandido morto -- raciocínio com que, estranhamente, o deputado-coronel condenado parece concordar.

Ao final do filme, cita-se frase considerada uma confissão pela sociedade dos amigos dos bandidos mortos: a de que o filme, como o livro, não "ouviu" o outro lado. Essa opinião, reclamam a revista Veja e o deputado condenado, fizeram falta à película. Na verdade, o raciocínio carece de uma falha básica: o episódio principal do filme, que é o fato de 111 pessoas terem sido assassinadas não é uma opinião. E ainda que a revista fosse chamada a opinar, esse fato não se alteraria.

Em entrevista ao site Consultor Jurídico, o coronel elogiou a crítica da Veja. Segundo ele, a revista foi "coerente" com a realidade. Ubiratan reafirmou que deveria ser ouvido pelo diretor do filme.

Ele disse que no massacre do Carandiru "morreram os que enfrentaram a polícia". A maioria do Pavilhão 9 ficou viva porque não enfrentou a PM, de acordo com o coronel.

Leia o discurso do deputado:

Pronunciamento do Sr. Deputado Coronel Ubiratan na 13ª Sessão Ordinária da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, em 02/04/2003:

Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sras. Deputadas e meu querido amigo Deputado Bittencourt, que me cedeu parte do seu tempo para que pudesse vir a esta tribuna.

Assumo hoje a tribuna indignado, indignado em razão do filme "Carandiru", de Hector Babenco, que será lançado na semana que vem. Indignado porque esse diretor, se no mínimo não foi o responsável, foi covarde, porque quem quer fazer um trabalho sério de um fato real, de um fato acontecido e conhecido, no mínimo, tem de ouvir as duas partes.

Esse senhor fez o filme e eu assisti a algumas cenas que só ouviu o lado dos detentos e dos presos, sem ouvir sequer qualquer policial. Eu, que fui o comandante da operação, já fui julgado e condenado e estou aguardando um recurso, não fui ouvido.

Deputados, nunca me escondi. Sempre prestei contas, sempre assumi a responsabilidade daquilo que fiz. Agora, mostrar cenas mentirosas, cenas de violência inacreditáveis, de policiais militares saqueando e matando indiscriminadamente, no mínimo, é covardia. Por que? Alerto aos Srs. Deputados, a esta Casa e ao público, que faltam 84 homens da Polícia Militar para serem julgados. Eu já fui julgado. Indago quem de nós não se lembra de cenas de filmes vistos na nossa infância e na nossa juventude ou pela beleza, ou pela violência, ou pela sensualidade? Elas nos marcam e ficam em nossa mente.

Esse senhor fez esse filme, que será assistido por milhões de pessoas. Pergunto: se um dos jurados vir essas cenas e amanhã vier a julgar um daqueles homens que estavam comigo, ele já virá pré concebido por ver a ação da Polícia Militar como violenta.

Então, é uma injustiça, é uma irresponsabilidade, e mais do que isso, é uma covardia. Agimos no cumprimento do dever e cumprimos com a missão. A minha indignação é pela situação desses homens que serão julgados e estão expostos às cenas que o Sr. Hector Babenco mostra.

Chegamos a um ponto tal de violência com mortes de juizes corregedores; com violência no Rio de Janeiro comandadas pelo Comando Vermelho e PCC e Fernandinho Beira-Mar se impondo, deixando o Ministro da Justiça numa situação difícil, tendo de voltar atrás das coisas que falou. Isso é o que resultado do que? Daquela proteção indevida que se deu a bandidos ao longo desse tempo.

Senadores foram dormir no Carandiru porque poderia haver uma rebelião, mas eles foram dormir de pijama e de Rolex - Rolex também está na moda; hoje, no Governo federal, se dá de presente - mas foi dormir para garantir a integridade de presos. Foi esse mesmo Senador dormir na favela Heliópolis porque iria haver uma batida policial. Bandido cresce. Bandido só respeita uma coisa: força maior do que a dele. Aí começaram a crescer.

No dia do meu julgamento, no dia em que fui condenado a 632 anos de reclusão, o que aconteceu? As cadeias de detenção fizeram festa, churrascada e cachaçada. Aqueles que defenderam esses bandidos também foram à televisão e às tribunas e disseram: "Foi feito justiça." Quem ganhou com isso? Ganhou o marginal. Por que? Porque ali se afrouxaram as regras da disciplina nos presídios, ali se afrouxaram todas as regras de enfrentamento ao crime. Chegamos ao que estamos hoje. Os mesmos homens, que bateram palmas, que criticaram as ações policiais - inclusive a do ano passado, na Castelinho, quando um Deputado tentou dizer que aquilo foi um massacre, foi isso, foi aquilo - hoje, esses mesmos homens dizem: "Não, temos que endurecer, temos que jogar duro contra o crime." Mas são eles próprios que deixaram que isso acontecesse.

E nesse afã de resolver as coisas, o Juiz não assina mais a sentença. Se o Juiz não assina a sentença, ou o direito, ou se nega o direito do preso, eu pergunto: o Delegado vai assinar o auto de prisão em flagrante? O Policial vai sair às ruas com o seu nome, com a sua cara, mostrando-se para ser assassinado? Temos que combater de verdade.

Vêm aqueles e dizem: "Vamos montar uma força-tarefa."Vou fazer agora uma hora da saudade. Está aqui o nobre Deputado Conte Lopes. Em 1982, aproximadamente, começou um bandido a crescer, de nome Binha, alguma coisa assim, na Zona Norte. Assaltante de banco, traficante, começou a dominar toda a região. Não criamos força-tarefa. Um dia cheguei em casa, já me preparava para dormir, onze e meia da noite, e o então Capitão Conte Lopes me ligou. Eu estava no comando da Rota. Ele me disse: "Vai haver uma reunião do Binha e sua quadrilha em tal lugar, às três horas da manhã."

Perguntei ao Conte: "Quem está no quartel?" Ao que ele responde: " Fulanos de sempre." A nossa força-tarefa era a de sempre: Mascarenhas, Mendonça e outras pessoas em quem confiamos a vida toda. Perguntei-lhe: "Vai reunir a quadrilha? Quantos são?" Ele respondeu-me: "Mais ou menos oito a dez." Lá fomos nós. Nós éramos a força-tarefa. E enfrentamos. Aqueles que se renderam, se renderam e pagaram sua pena. Quem nos enfrentou, morreu. Essa é a lei. É a lei do enfrentamento na rua. Não adianta fazer discurso.

Bandido não respeita discurso, bandido não respeita programa: vamos desarmar São Paulo, vamos fazer isso, campanha pela Paz, campanha daquilo. Bandido, como disse, só respeita força maior do que a dele.

Agradeço V. Ex.a. De longa data, acompanhamos o seu trabalho. Trabalhamos juntos, enfrentamos nas ruas o crime. Não fizemos discurso, não cometemos excesso, não fizemos violência, mas enfrentamos de frente, nas ruas. O crime se resolve nas ruas. O Delegado de Polícia, o Comandante da Companhia, o Comandante do Batalhão sabem como enfrentar essas coisas.

Quando nos preparamos para combater, fazendo operações sérias, como a do ano passado, na Castelinho, em que foram mortos doze marginais da mais alta periculosidade, doze integrantes do PCC, que armados iam praticar crimes no Interior do Estado. Vieram os defensores dizendo: "Não, foi uma emboscada."

Pergunto-lhes: "Como V. Ex.as. querem que combata o crime? Com discurso do politicamente correto? Com discurso de bonzinho?" Bandido respeita o quê? Quantas e quantas vezes, nós - e digo nós porque sempre agi nas ruas e tive a honra de trabalhar com o Deputado Conte Lopes - quantas vezes, na madrugada, no Parque Arariba, na Mooca, recebemos a informação de uma quadrilha de oito homens. Lá fomos nós.

Essa é a minha indignação, principalmente em razão desse filme. Fizemos esforços para que ele não fosse exibido. Principalmente pelo fato de não termos sido ouvidos. Livros foram escritos. Faço uma ressalva ao livro do Dr. Dráuzio Varella, em que ele conta os casos do Carandiru, conta as situações que aconteciam no dia-a-dia, que são tenebrosas. Quando se concedeu a visita íntima no estabelecimento prisional, no estabelecimento do Estado, a partir daquele momento, em 1983, a coisa degringolou. Presos colocavam barraquinhas de camping para ter visita íntima. Só que ali, naquele presídio, com a complacência das autoridades, fazia-se de tudo: vendia-se uísque, cocaína, maconha, mulher, travesti, fazia-se de tudo.

Dentro de um estabelecimento do Estado. E os defensores sempre falavam: "Eles têm o direito, eles precisam." Não precisam. Quem precisa de segurança, quem precisa de apoio do Governo é o trabalhador, é o homem honesto, é o homem sério. Temos que investir é na criança, na educação, cuidar do idoso.

O "Seu" Fernandinho Beira-Mar teve um sério distúrbio estomacal e ele tem que passar tomando suco ou sopa. Deu-se ênfase à notícia de um marginal, que cometeu atrocidades, barbaridades. Mas não se dá uma linha à criança que está disputando comida com o urubu na lixão do Pirajussara. Os bandidos são endeusados, colocados como popstar, como vedetes. E a mídia, todos cuidando disso.

Será que não temos coisas mais sérias para cuidar? Será que não temos que defender quem precisa: o trabalhador, o honesto, que levanta às cinco horas da manhã, toma duas conduções, come uma marmita - às vezes de arroz com ovo - mas está trabalhando, produzindo? Aqui, com os senhores Fernandinho, Marcola, Geleião ficam preocupados o Estado, a Nação, o Presidente. Está na hora de mudarmos. Mudar a segurança pública, mudar a lei, mudar alguma coisa.

Conjugávamos esforços para enfrentar o crime: juntos Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal. Só com essa conjugação de esforços. Não adianta dizer: "Vamos unificar porque unificar é bom." Cada um tem a sua competência no artigo da Constituição. A Polícia Militar tem o seu encargo, a Polícia Civil tem outro, assim como a Polícia Federal também tem outro. Desta forma, temos que conjugar esforços e não dividir e ficarmos fazendo discurso. O crime contagia. Isso, no meu entender, é importante. O que aconteceu no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, contagia e dá motivação e exemplos para que aconteçam também nos outros estados.

Peço desculpas aos Srs. Deputados, por às vezes me inflamar, mas é que sinto na carne. Sou o maior condenado deste país. Nunca na história do Brasil teve um condenado como eu. O meu grande crime não foi o do Fernandinho Beira-Mar, nem o do Geléia e nem o do Marcola, meu grande crime foi defender uma situação, assumir, expor-me, não me esconder. Se V. Exas. quiserem, meu telefone está na lista. Aliás, nunca tirei meu telefone da lista. Pois se me omitir, se me esconder e não assinar aquilo que fiz, não sirvo para ser policial.

Muito obrigado.

Revista Consultor Jurídico, 8 de abril de 2003, 15h28

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