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Guerra no Iraque

'Conversando com o inimigo em tempos de guerra.'

Lemos na Constituição Americana que conceder "auxílio e conforto" a um inimigo em tempos de guerra pode ser o motivo de uma acusação por traição. Pelo que sei, ainda não houve quem sugerisse que Peter Arnett devesse responder por este crime capital. Mas Arnett, ao que parece, amarrou uma corda em seu pescoço.

Arnett, como todos sabem, é o ex-repórter da NBC e da National Geographic que foi demitido após conceder uma entrevista à rede estatal iraquiana de televisão. Nesta entrevista ele fez críticas à campanha militar americana e elogiou a resistência do povo iraquiano e a cooperação do ministério iraquiano da informação, embora vários correspondentes americanos tenham sido expulsos do país e, até onde se sabe, dois continuem desaparecidos.

Não há justificativa possível para a insensatez de Arnett, e ele pediu desculpas pelo que fez. Entretanto os jornalistas - sobretudo aqueles que são obrigados a tratar com governos estrangeiros em momentos de extrema tensão - reconhecerão que a concessão da entrevista possuía algum motivo. Eles podem reconhecer sem perdoar.

Há um adágio que trata do contato de um repórter com o segredo que paira sobre a maior parte das atividades de um governo, entre nós e em um grande número de países que não aceitam a idéia americana da liberdade de imprensa. Eis o adágio: um repórter vale tanto quanto suas fontes.

Ao conceder a entrevista, Arnett evidentemente se aproximava das fontes que lhe garantiam, em primeiro lugar, sua permanência em Bagdá, e, em segundo lugar, todas as suas informações acerca da estratégia militar iraquiana, suas declarações a respeito de vitórias em combates e do estado de ânimo da população.

Sob este prisma, Arnett era um valoroso correspondente dentro da capital inimiga. Enquanto agradasse às fontes de Bagdá, ele poderia transmitir notícias para os Estados Unidos. Seria até possível afirmar que sua visão privilegiada possuía algum valor para os nossos militares.

Arnett foi um grande repórter da Associated Press durante a guerra do Vietnã; sua cobertura lhe valeu um Prêmio Pulitzer. Seus companheiros o respeitavam por sua coragem incomum, sua ousadia e sua inteligência.

Sua modéstia, tão exaltada, ficou abalada após seu ingresso na televisão e sua permanência em Bagdá no ano de 1991, quando cobriu a guerra para a CNN. Na última semana, ele afirmou em uma entrevista que, se os planejadores da guerra tivessem assistido suas reportagens, saberiam da força do exército iraquiano e da firmeza de seu povo.

Sua vasta experiência torna ainda mais difícil a tarefa de compreender como ele poderia ter cometido a irresponsabilidade de conceder esta entrevista. Ele manchou sua reputação, ofendeu o país e perdeu - com justiça - seu emprego.

Porém a demissão de Peter Arnett não foi somente uma tragédia pessoal. Sem sua presença, perdemos em Bagdá um olhar que era, na verdade, uma contribuição valiosa ao que sabemos sobre um misterioso inimigo.

Fonte: The New York Times

Revista Consultor Jurídico, 3 de abril de 2003, 16h26

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