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Um mito

A vida e as opiniões do mito Goffredo da Silva Telles Júnior

O professor Goffredo da Silva Telles Júnior é um mito. Mas um mito ao alcance de todos. Afável, continua recebendo ex-alunos e jovens estudantes. Humilde, diz que é um estudante. Incansável, está sempre na linha de frente quando se trata de lutar por causas justas. Professor de Direito e advogado por vocação. Disse que está escrito em seu DNA, em entrevista ao jornal Tribuna do Direito.

Formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1937, Goffredo começou a dar aulas em 1940. Durante 45 anos esteve na velha e sempre nova Academia, ensinando os mais jovens - como diz, está em sua terceira juventude. Eram aulas de Introdução à Ciência do Direito, em que falava também sobre o amor, a poesia e a harmonia. Só se aposentou pela compulsória, quando completou 70 anos, em 16 de maio de 1985.

A aposentadoria, contudo, não o afastou completamente da vida acadêmica. Continua estreitamente ligado à faculdade, ao Centro Acadêmico 11 de Agosto e aos alunos. Lembrado pelas novas gerações, recebe em seu escritório jovens que não o têm como professor na faculdade, mas que querem trocar idéias e partilhar da sabedoria do mestre.

Em agosto deste ano, mestre Goffredo voltou ao pátio da Academia de Direito de São Paulo para comemorar os 25 anos da leitura da "Carta aos Brasileiros", um grito de liberdade em plena ditadura militar que repercutiu no mundo inteiro. Para a multidão que lotava as Arcadas, Goffredo proclamava que "para nós a Ditadura se chama Ditadura, e a Democracia se chama Democracia. Os governantes que dão o nome de Democracia à Ditadura nunca nos enganaram e não nos enganarão... A consciência jurídica do Brasil quer uma cousa só: o Estado de Direito, já".

A coragem que demonstrou há 25 anos não esmoreceu. Nem o otimismo. Vê problemas graves no governo Fernando Henrique Cardoso e no sistema democrático, mas não desanima. "É uma vergonha chamar empréstimo do FMI de acordo, assim como é uma vergonha o Executivo usurpar a função do Legislativo e legislar por meio de Medidas Provisórias. É por isso que digo que estamos numa Democracia de mentira e precisamos caminhar para um Democracia participativa. Mas sou otimista. Sempre fui. Estou na luta. Estou na trincheira", adverte.

Infância em Paris

Primogênito de cinco irmãos, mestre Goffredo nasceu no centro da capital paulista, na esquina da Rua Conselheiro Nébias com a então também Rua Duque de Caxias. "Numa grande casa construída pelos meus avós no final do século XIX. Nos fins de semana, nos dias de sol, meus tios, meus pais, avós, parentes, amigos pegavam seus grandes cavalos ingleses no jardim de casa e iam passear pelo centro da cidade, pela Praça da República...", recorda.

Seus pais eram fazendeiros. Goffredo pai era também poeta - foi presidente perpétuo da Academia Paulista de Letras -, empresário e político. Em 1930, foi vereador em São Paulo e, em 1932, prefeito da capital, antes e durante a revolução, época em que criou o Parque do Ibirapuera. A mãe, Carolina Penteado da Silva Telles, cedo percebeu a vocação do filho. Chamava-o de advogado desde quando ele era ainda um menino de calça curta.

Goffredo viveu parte da infância em Paris, onde foi alfabetizado. Aos cinco anos já falava Francês e Inglês. De volta ao Brasil, cresceu rodeado de intelectuais. "Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, toda aquela gente freqüentava a minha casa. Iam lá tomar o chá das terças-feiras. Fiquei muito amigo deles todos. Villa-Lobos um dia me presenteou com um violão e me ensinou a tocar. E Tarsila foi minha professora de Desenho durante mais de um ano. Eles freqüentavam não só nossa casa aqui de São Paulo, mas também a Fazenda Santo Antônio, em Araras", relembra.

Goffredo viu a cidade crescer e transformar-se. O casarão em que nasceu foi derrubado para que a Duque de Caxias virasse avenida. Mas nunca abandonou o centro da cidade, que considera o melhor lugar para se morar em São Paulo. "Moro na Avenida São Luiz. Tenho uma vista maravilhosa. Nos dias claros vejo até o horizonte. Todas as minhas janelas são banhadas pelo sol da manhã. Meu estúdio fica numa sala que dá para os fundos, onde o silêncio é total e onde todas as manhãs alimento bandos de passarinhos. Lá fico sossegado para pensar, escrever e estudar. Tenho como metrô o elevador, pois meu escritório fica no andar de cima de minha casa. E sobretudo, moro perto da minha faculdade, da minha querida escola", diz orgulhoso.

Goffredo lembra que a histórica Fazenda Santo Antônio teve de ser desmembrada e uma parte vendida para dividir pelos herdeiros. A sede, que é tombada, não pôde ficar na família. "Eram mais de 60 pessoas. Tivemos que vender", informa.

O fascínio pelas Arcadas

Seus primeiros estudos foram no Colégio Franco-Brasileiro, atual Pasteur. No fim do primeiro ano do ginásio, Goffredo e seu irmão Ignácio foram para o Ginásio de São Bento. Estudou Latim desde o primário e, no ginásio, apaixonou-se por Filosofia.

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Revista Consultor Jurídico, 10 de outubro de 2002, 11h25

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