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Holofotes em evento

Fórum Mundial terá participantes sérios e outros ávidos por holofotes

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O III Fórum Social Mundial (FSM) será, em Porto Alegre, de 23 a 28/1/03. A iniciativa congrega pessoas sérias, preparadas, convictas de seus princípios. Entretanto, também abriga participantes sem o mesmo compromisso e estatura, ávidos por holofotes, capazes de enganar muitas pessoas por longo tempo. O melhor exemplo é Mon. José Bové, de quem na França se diria "ça ne vaut pas la peine parlez de lui", mas o engodo que ele significa justifica a análise.

Movimentos civis

Os movimentos civis (ONGs ou Terceiro Setor) nasceram de forma isolada, cada qual agregado em torno de uma idéia-força. Sob essa égide, estruturaram-se as vertentes ambientalistas, a luta pelos direitos civis das mulheres ou dos sem terra. Uns prosperaram, outros feneceram. Há os que se profissionalizaram (WWF, Greenpeace, Médicos sem Fronteira) e têm clareza de seu foco.

Outros estacionaram na fase embrionária do discurso difuso e da rebeldia sem causa. Recentemente, observou-se a coalescência de diversos movimentos que, em sua origem, nada têm em comum afora a proposta de mudanças estruturais, em algum setor da sociedade.

O FSM é um ícone desta soldadura, propiciando um foro para protestos e propostas díspares, cuja linha de junção é o rompimento com atitudes do passado e do presente, em busca de um mundo melhor, justo e sustentável.

Sinergia

A coalizão provoca a sinergia, insere uma cunha na sociedade, obriga o repensar de estruturas enquanto tese, rompe com a inércia conservadora, pauta a mídia e traz o tema para o cotidiano. Em contraponto, cria um artificialismo em que a luta de cada um é a de todos e vice-versa. Miscigena ideólogos, detentores de sólidos princípios e convicções acerca de um tema com cidadãos de mesmas características, ligados a outra temática. Cada qual apenas tangencia o mote do companheiro, porém a solidariedade conduz ao alinhamento automático, fonte da força grupal. Eis porque o MST, um conjunto de excluídos da sociedade, que além de terem negada a terra também têm restringido o acesso à educação, à habitação ou à saúde, questiona paradigmas científicos, como a biotecnologia.

No entanto, as maiores ameaças são os oportunistas. Como na deliciosa crônica de Lima Barreto (O homem que sabia javanês), vivaldinos e aproveitadores sobrevivem da boa fé dos incautos, parasitando sua energia positiva, embora desconectados de sua luta.

Aproveitadores

Participantes do FSM foram rotundamente ludibriados em sua boa fé por um "pequeno agricultor" (ter-lhe-ia ocorrido intitular-se "sans terre"?), presidente da Confederação dos Agricultores da França. Tempo houve em que patrão vestia terno e gravata, ritualística abominada pelas lideranças populares.

Talvez Bové tenha introduzido o padrão Giorgio Armani no setor, mas sequer o detalhe ostentatório alertou o público que seu discurso contradizia suas convicções, sua prática política e suas posses. Escamoteado no bom combate (abaixo as multinacionais, os transgênicos, os agrotóxicos!) iludiu a todos. Obnubilado pelo charme da verborragia gaulêsa, acantoava-se um ardente defensor do famigerado e retrógrado protecionismo agrícola europeu.

O Imperador está nu!

Sob o comando do histriônico Gen. Bové, corações e mentes do Fórum, em ordem unida, destruíram experimentos científicos. Nada mais quixotesco ou desprovido de dialética. A ninguém ocorreu questionar o dogma, verificar quem é e o que faz esse caudilhete em sua terra natal. Ninguém ousou exigir reciprocidade, um pronunciamento a favor da igualdade social, a condenação da discriminação Norte Sul, onde a França e EUA são xifópagos. Que abominasse o protecionismo europeu, co-responsável pela fome de 800 milhões de excluídos, pela desnutrição de 200 milhões de crianças e morte de 20 milhões delas, a cada ano.

Pela falta de emprego, renda, progresso e desenvolvimento nos países pobres, impedidos de exercer sua vocação agrícola. Protecionismo que aborta a geração de renda e os concomitantes recursos tributários que permitiriam cumprir a agenda ambiental e social propugnada pelos participantes sérios do Fórum.

Antes de convidar para o III FSM, este senhor reacionário, antítese da justiça e eqüidade social, seria interessante que os organizadores refletissem o quanto atitudes de líderes retrógrados como Mon. Bové são responsáveis pelo status quo que horripila os participantes do FSM. Ou então convide-se uma criança para parodiar Hans Christian Andersen: "But the Emperor has nothing at all on!" said a little child. Fiat lux e "But he has nothing at all on!" at last cried out all the people."

Leia "O Homem que sabia javanês" em www.agropolis.hpg.com.br/javanes e "O rei nú" em www.agropolis.hpg.com.br/o rei nu.

 é ex-chefe geral da Embrapa Soja (Londrina-PR)

Revista Consultor Jurídico, 8 de outubro de 2002, 15h01

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