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Museu do spam

Entrevista: 'curador' do Museu do Spam fala sobre o spam eleitoral

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Irritado com a prática do spam (mensagens eletrônicas indesejadas e não solicitadas), um webdesigner de 27 anos que prefere preservar o anonimato fundou o Museu do Spam, utilizando-se da imagem de um palhaço como símbolo, idealizada a partir de fotos de um dos candidatos à presidência, Ciro Gomes.

Especialmente nesta época em que proliferam os spams de categoria "eleitoral", o curador já recebeu ameaças de alguns candidatos que não ficaram muito contentes por terem sido incluídos no "acervo". Ele se utiliza de um endereço de e-mail grátis (hotmail.com) para não ser identificado, e explica na abertura da página que sua missão é "resguardar para as gerações futuras, este curioso hábito de fazer spam. Por que, afinal, um dia o spam vai acabar. Seja por causa de leis, seja por causa do bom senso."

Contactado por e-mail, o curador concordou em relatar para o Consultor Jurídico a história por detrás da idéia.

ConJur: Quando e por que foi criado o Museu do Spam? Por que a 'logomarca' de um palhaço?

Curadoria: O Museu abriu suas portas oficialmente no dia 1º de abril de 2002. Já havia alguns meses que eu cultivava a idéia, e aconteceu de ficar o final de semana anterior ao 1º de abril desocupado. Considerei isso um sinal. Tanto que o Museu foi construído como se brinca com 'Lego': uma peça simplesmente se encaixava na outra, e o site ficou pronto para funcionar. O Museu foi criado por que no caso do spam, apenas o lado dos spammers se fazia ouvir, como no caso de que o spam funciona, que é legal, que "assim como você milhares de pessoas estão lendo esta mensagem". O Museu nasceu dessa necessidade de mostrar a farsa por detrás do spam e como ele é prejudicial para manutenção do serviço de e-mail. Que graças ao spam, a maneria aberta e amigável do e-mail está sendo morta aos poucos. E o humor e ironia são ótimos veículos para a denúncia. Isso nos leva à logomarca: que melhor símbolo para um Museu do que um busto de quem ele homenageia? O busto foi criado baseado em fotos do candidato Ciro Gomes, que fez spam em minha caixa postal meses antes da campanha para presidente ter início. Como era um dos raros spammers de quem eu tive acesso à foto, então foi ele mesmo.

ConJur: Qual sua visão pessoal sobre o spam? E, em especial, sobre o spam eleitoral?

Curadoria: O spam matou o uso amigável e aberto do e-mail. Tudo em função de gente sem senso de viver em comunidade que abusa de um serviço em busca de benefício próprio, em detrimento da manutenção deste serviço. Seria como se uma vila tivesse um poço de água potável, mas o pessoal ao invés de preservá-lo para benefício dos demais, usa o poço para lavar roupas ou como depósito de lixo e esgoto. Sobre spam eleitoral, é elevar a nível de arte o papel de rídiculo a que os políticos se sujeitam em tempos eleitorais para garimpar votos. Não há indicador de ignorância maior do que é democracia do que o candidato que só aparece em tempos eleitorais mendigando votos. Pedindo votos então por e-mail, é o absurdo da conveniência. Pedindo votos a eleitores de outros estados, então, é extrair a essência do rídiculo e da conveniência e beber dela.

ConJur: Alguma razão em especial para a vinculação do subdomínio "museudospam" ao "subversao.com"? Não pensa em ter um nome de domínio próprio?

Curadoria: Como disse anteriormente, o Museu foi criado encaixando uma peça na outra. O Oggh, que detém o domínio Subversao.com, mandou na semana anterior à criação do Museu um convite para várias listas de discussão, onde ele cedia o uso do domínio para blogs com propósitos adequados ao nome do domínio. Mandei a proposta do Museu para ele e gentilmente ele acatou. Quanto a domínio próprio, isso acarretaria ligar meu nome ao registro. Prejudicaria meu anonimato. E a proposta do Museu é divulgar informações embasadas sobre o spam, não se tornar um site profissional.

ConJur: Qual o caso mais polêmico envolvendo os spams publicados?

Curadoria: O caso do candidato a deputado federal em SP, Antônio Carroça, atraiu muita gente ao Museu, e provou que melhor para os spammers é deixar as suas peças no Museu, do que criar comoção em torno delas. O Oggh também teve problemas com isso: o candidato A. Carroça detectou seu telefone no registro do domínio, e ligou para ele tirando satisfação de um spam que foi publicado no Museu. Fora isso, o Museu já recebeu mais 5 ameaças de processos. Todas declinadas, quando eu não me mostrei intimidado (claro, contei com a consultoria informal de especialistas na área). Spammers sabem que o que fazem ultrapassa o limite do abuso, e a falta de legislação em torno da Internet tanto pode favorecer a eles como ao Museu. No caso do A. Carroça, eu de fato tirei seus spams do ar, porque suas ameaças combinavam muito mais com o teor do Museu do que seus simplórios spams.

ConJur: Por que você não costuma se identificar em sua página? Pode nos dizer sua idade, profissão e cidade onde mora? Você toma cuidados reais para permanecer não-identificável ou apenas usa e-mails gratuitos?

Curadoria: Procuro preservar meu anonimato por vários motivos: primeiro, para evitar revanchismo dos spammers. Segundo, não quero que o Museu seja ligado a minha pessoa, tendenciosamente ou com intuito de me promover. E terceiro, muitos profissionais da web são coniventes com o spam ou simplesmente, acham que é radicalismo exacerbado combatê-lo, que é uma coisa com a gente se conformar. Para estes, "ativista anti-spam" é sinônimo de "terrorista" ou de gente com tempo disponível. Tenho 27 anos, sou webdesigner e moro no centro-oeste. Raramente adoto cuidados maiores para preservar meu anonimato: O e-mail que uso do Museu vão todos com o meu IP real. As peças do acervo têm o seus headers modificados para retirar os e-mails reais para evitar a minha identificação, para evitar os já citados revanchismos ou para simplesmentes os spammers não excluírem meus e-mails. Não gostaria que o Museu inteiro servisse para eliminar meu problema pessoal de spam, mas que servisse para acabar com o spam como um todo.

Leia também, no InfoGuerra.com.br: Spam é o vencedor das eleições 2002.

 é advogado, diretor de Internet do Instituto Brasileiro de Política e Direito da Informática (IBDI), membro suplente do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e responsável pelo site Internet Legal (http://www.internetlegal.com.br).

Revista Consultor Jurídico, 6 de outubro de 2002, 17h08

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