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SOS imprensa

ONG pede fim da impunidade de assassinos de jornalistas

De acordo com o inquérito, o assassino utilizou um revólver Taurus calibre 38, a arma não automática mais utilizada no Brasil, inclusive pela polícia. As últimas balas atingiram a vítima pelas costas, quando tentava fugir para o domicílio de seu filho Marcel, duas casas adiante. Enquanto isso, o motorista da Silverado fez o retorno a dois passos da delegacia e parou, na volta, para que os dois homens entrassem no carro. Para fugir, a caminhonete foi obrigada a passar novamente na frente do Batalhão da Polícia Militar. Ferido por seis balas, das quais duas atingiram a cabeça e o coração, Manuel Leal de Oliveira foi transportado para o hospital em seu próprio veículo, por familiares. Morreu durante o trajeto.

Primeira incongruência do caso: a família do jornalista, que correu para a delegacia vizinha e, em seguida, para o Batalhão da Polícia Militar, habitualmente repletos de oficiais, só encontrou alguns guardas, porque a maior parte das tropas tinha sido enviada para "patrulhar a cidade". O local do crime não foi isolado para a coleta de provas. Só os cartuchos foram rapidamente recolhidos pela polícia.

No mesmo dia, por volta das 16 horas, na sede do jornal, Manuel Leal de Oliveira recebera ameaças por telefone. Conversando, mais tarde, com um corretor, ele simplesmente dissera que não sabia se ainda estaria vivo no dia seguinte. Antes disso, José Freitas Oliveira, um ex-funcionário da gráfica Colorpress, propriedade de Manuel Leal de Oliveira, tinha sido informado por um de seus amigos que um grupo de pessoas tinha se reunido naquela mesma manhã, por volta das 6 horas, no clube de tênis da cidade, para planejar dar uma lição no proprietário e diretor de A Região. Quando prevenido, o jornalista pareceu não levar a sério essa informação. Por fim, de acordo com cópias do dossiê penal, um funcionário da Colorpress, Flavio Eduardo Monteiro, afirma ter ouvido, no dia 31 de dezembro de 1997, um advogado declarar que o delegado Gilson Prata, denunciado pelo jornalista em vários artigos, "[estava] preparando uma pra ele [o diretor de A Região] que ele não vai esquecer". Flavio Monteiro disse igualmente ter visto, no hospital, que Manuel Leal de Oliveira trazia consigo um papel com a inscrição "Roque de Tal X-9".

Aconselhado por familiares e amigos a deixar a cidade, inclusive no próprio dia do crime, a vítima não achou necessário tomar esse tipo de precaução, julgando que "esse pessoal não seria capaz de matar".

Revelações incômodas

Quem tinha interesse em matar Manuel Leal de Oliveira? Em dezembro de 1997, o jornalista tinha denunciado, em vários artigos, as irregularidades cometidas por Fernando Gomes, então prefeito de Itabuna, com base em documentos do Tribunal de Contas do município que atestavam o uso de notas frias e superfaturamento. Acima de tudo, ele acusara o delegado Gilson Prata de ter recebido dinheiro do prefeito. Delegado da Divisão de Crimes Contra Fraudes Econômicos e Financeiros, Gilson Prata tinha sido encarregado pelo Secretário de Segurança Pública da Bahia de investigar uma fraude relacionada com a arrecadação do IPTU, da qual eram acusadas pessoas ligadas ao ex-prefeito Geraldo Simões (PT, 1992-1996). A Região tinha revelado que, durante as investigações, Gilson Prata recebera 4.500 reais do prefeito a título de "ajuda de custo" e que o delegado tinha se instalado no escritório do vice-prefeito.

O jornal denunciara igualmente os auxiliares de Gilson Prata, o policial Mozart Costa Brasil e Roque Souza, agente da Secretaria de Segurança Pública, acusando-os de ter recebido, cada um, 1.500 reais, igualmente como ajuda de custo. O jornal acusava Prata de promover uma verdadeira "caça às bruxas", perseguindo os membros da antiga prefeitura. A cada semana, o periódico apresentava denúncias sobre irregularidades na administração do dinheiro público pela equipe do então prefeito, Fernando Gomes.

Manuel Leal de Oliveira, que fundou o jornal A Região em abril de 1987, era considerado como um jornalista "polemista" e até "provocador", segundo Agostinho Muniz, diretor da Associação Baiana de Imprensa, da qual Manuel Leal era membro. Era justamente o tom ofensivo de A Região que fazia o seu sucesso. Para preparar os artigos publicados em dezembro, o jornalista, como fazia na maioria das vezes, tinha consultado fontes oficiais, nesse caso as contas do município, antes de lançar as acusações.

Guerra entre polícias: as lebres e a tartaruga

Designado, pouco tempo antes, para trabalhar em Itabuna, o delegado regional da Polícia Civil da Bahia, João Jacques Valois, oficial da polícia judiciária, assumiu o comando do inquérito a partir de 15 de janeiro, dia seguinte ao assassinato do jornalista, crime cuja repercussão tomou rapidamente proporções nacionais e internacionais - o décimo assassinato de um jornalista no Estado da Bahia em oito anos, cuja vítima, ainda por cima, era um profissional tarimbado, causou profunda indignação.

Revista Consultor Jurídico, 3 de outubro de 2002, 15h52

Comentários de leitores

1 comentário

Acredito que seria importante designar a Políci...

Edilson José Alves ()

Acredito que seria importante designar a Polícia Federal para apurar os crimes cometidos contra jornalistas, principalmente os que acontecem nas cidades do interior do Brasil. Muitos crimes não são apurados porque existe um comprometido das forças policiais com o crime organizado ou porque o Estado não possui a estrutura necessária para enfrentar o crime organizado. Como um policial com um revólver 38 vai enfrentar bandidos armados com fuzis, metralhadoras, bazucas e granadas? É impossível. Dessa forma, o crime que está cada vez mais organizado, cresce e assusta.Populações que já eram caladas e que não colaboravam com o trabalho da polícia, agora estão mudas e os que se atrevem a falar perdem a língua. Um dos casos mais estarrecedores registro contra jornalista, registrado por esse repórter, ocorreu na terça-feira passada, dia 20 de abril de 2004, quando o radialista brasileiro Samuel Romã, que fazia criticas contra o crime organizado na fronteira do brasil com o Paraguai, foi executado com rajadas de balas de pistolas automáticas calibre 9 milímetros no centro de Coronel Sapucaia, cidade de Mato Grosso do Sul que faz fronteira com Capitán Bado, no Paraguai. O interessante nesse caso é que os organismos do Estado de MS foram mobilizados na tentativa de prender os criminosos, mas numa ação fatástica da Polícia Nacional do Paraguai, houve a prisão em menos de 24 horas depois do crime dos três acusados. Foram presos no Paraguai os brasileiros Ricardo Antônio Machado, Fabiano Lucena dos SAntos e Luciano Gregório de Lucena, os dois primeiros de 18 anos e o terceiro com 23 anos de idade. Os três acusados foram levados da fronteira para a Delegacia do Garra em Campo Grande, capital do MS, onde estão a disposição da justiça. Edilson José Alves Ponta Porã-MS, na fronteira com Pedro Juan Caballero, no Paraguai.

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