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Feeling policial

A síndrome de conspiração no caso PC Farias deve ser rejeitada

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Dê-me a cena do crime de PC e eu faço um excelente roteiro Hollywoodiano provando que houve uma conspiração para matá-lo. Quem sabe com ajuda da CIA. Ingredientes não faltam, mas é só. A realidade é bem outra.

Nos últimos anos, as investigações policiais sobre homicídios têm se tornado mais modernas e científicas. A introdução de novas técnicas e tecnologias mostra que crimes outrora não identificados, não ficariam impunes hoje.

Os profissionais de polícia sabem que a cena do crime, de qualquer crime, costuma dizer mais do que qualquer testemunha e é sempre foco primário das investigações.

Dentre os indícios de provas analisados pelos policiais, a interpretação das manchas de sangue é considerada um dos mais importantes, pois é imutável e irreproduzível, permitindo a reconstrução geométrica do evento, como foi criado e como foi projetado.

Tal análise indica o ponto de origem do sangue, o movimento da pessoa ou objeto, a direção do corpo, e o movimento do corpo após a mancha. Esses dados são técnicos, baseados na imutável Lei da gravidade e decorrente de experiência adquirida em casos semelhantes.

Essas análises demonstram que as marcas de sangue encontradas no quarto onde PC e Suzana morreram, foram ali produzidas após o seu suicídio, algo impossível de ser reproduzido artificialmente.

Aliado a essas considerações, nota-se que no local não havia roupas em desalinho, arranhões ou qualquer detalhe que indicasse interrupção de atividade, nem indícios de reação de defesa.

Não podemos esquecer que o senso comum costuma sempre interagir com a polícia a partir de novelas, filmes e livros de ficção, repletos de "síndromes de conspiração". Vamos ser mais profissionais e chega de detetives amadores!

A verdade é só uma, não existe no Brasil crime-organizado com know-how suficiente para cometer um duplo homicídio e montar artificialmente a cena do crime para aparentar um crime passional. Adulterar o local do crime para aparentar outro delito, exige experiência ... muita experiência, tempo, sorte e cálculos geométricos.

As provas técnicas não mentem jamais. A trajetória da bala no corpo e na parede, a posição dos corpos, a posição do cabelo, as manchas de sangue no corpo e cama, além de respingos na perna, o estado de embriaguez de ambos, o quarto trancado por dentro, o perfil psicológico de Suzana Marcolino, a arma comprada na presença da prima dias antes, a dedução, a lógica, experiência empírica, o "feeling" policial.

O que boa parte da população sofre é de uma tentação louca de explicar as mortes misteriosas como queima de arquivo. É evidente que muitos tinham interesse na sua morte, mas aqueles que acreditam que houve um duplo assassinato, e dizem isso sem o mínimo de base científica, demonstram despreparo, desconhecimento e são tomados de uma histeria coletiva, levando os autores dessas idéias, a integrarem o grupo daqueles que acreditam no homicídio de Juscelino, no tiro dado em Tancredo e na morte encomendada de Lady Diana.

O motivo que levou Suzana a matar PC e se suicidar, este sim pode continuar sendo um mistério, mas o crime em si, não. Não existem argumentos contra evidências. O laudo de Badan está correto, não existe complô em Guaxuma, só tragédia...

 é Delegado de Polícia, Chefe do Setor de Crimes pela Internet da Polícia Civil de São Paulo.

Revista Consultor Jurídico, 14 de novembro de 2002, 10h29

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