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Cena brasileira

Decisão em versos liberta preso por furto de galinhas

O juiz substituto da comarca de Varginha (MG), Ronaldo Tovani, concedeu liberdade provisória para Alceu da Costa. A decisão feita em forma de versos circulou pela Internet em listas de advogados.

Ele foi preso em flagrante por ter furtado duas galinhas. De acordo com a decisão, ele perguntou ao delegado "desde quando furto é crime neste Brasil de bandidos?".

Leia a íntegra da decisão publicada no site Espaço Vital:

No dia cinco de outubro

Do ano ainda fluente,

Em Carmo da Cachoeira,

Terra de boa gente,

Ocorreu um fato inédito

Que me deixou descontente.

O jovem Alceu da Costa,

Conhecido por "Rolinha",

Aproveitando a madrugada

Resolveu sair da linha,

Subtraindo de outrem

Duas saborosas galinhas.

Apanhando um saco plástico,

Que ali mesmo encontrou,

O agente muito esperto

Escondeu o que furtou,

Deixando o local do crime

Da maneira como entrou.

O senhor Gabriel Osório,

Homem de muito tato,

Notando que havia sido

A vítima do grave ato

Procurou a autoridade

Para relatar-lhe o fato.

Ante a notícia do crime,

A polícia diligente

Tomou as dores de Osório

E formou seu contingente:

Um cabo e dois soldados

E quem sabe até um tenente.

Assim é que o aparato

Da Polícia Militar,

Atendendo a ordem expressa

Do delegado titular,

Não pensou em outra coisa

Senão em capturar.

E depois de algum trabalho

O larápio foi encontrado.

Estava no bar do Pedrinho.

Quando foi capturado

Não esboçou reação

Sendo conduzido então

À frente do delegado.

Perguntado pelo furto,

Que havia cometido,

Respondeu Alceu da Costa,

Bastante extrovertido,

Desde quando furto é crime

Neste Brasil de bandidos?

Ante tão forte argumento

Calou-se o delegado.

Mas por dever do seu cargo

O flagrante foi lavrado

Recolhendo à cadeia

Aquele pobre coitado.

E hoje passado um mês,

De ocorrida a prisão,

Chega-me às mãos o inquérito

Que me parte o coração.

Solto ou deixo preso

Esse mísero ladrão?

Soltá-lo é decisão

Que a nossa lei refuta

Pois todos sabem que a lei

É pra pobre, preto e puta...

Por isso peço a Deus

Que norteie minha conduta.

É muito justa a lição

Do pai destas Alterosas.

Não deve ficar na prisão

Quem furtou duas penosas,

Se lá também não estão presos

Pessoas bem mais charmosas,

Como das fraudes do governo que até hoje rolam.

Afinal não é tão grave

Aquilo que Alceu fez,

Pois nunca foi do governo

Nem seqüestrou o Martinez.

E muito menos do gás

Participou alguma vez.

Desta forma é que concedo

A esse homem da simplória,

Com base no CPP,

Liberdade provisória

Para que volte para casa

E passe a viver na glória.

Se virar homem honesto

E sair dessa sua trilha

Permaneça em Cachoeira

Ao lado de sua família.

Devendo, se ao contrário,

Mudar-se para Brasília

Revista Consultor Jurídico, 8 de novembro de 2002, 15h56

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