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Mídia no alvo

Ives Gandra: condenação feita pela imprensa é pior que a judicial.

A pior condenação que um indivíduo pode sofrer não é a judicial, da qual pode se defender num processo, mas aquela feita pela imprensa, na qual seu nome aparece numa manchete e o desmentido, quando ocorre, é em letras miúdas no pé de página.

A opinião é do jurista Ives Gandra da Silva Martins, participante do Seminário Internacional Imprensa Investigativa - Sensacionalismo e Criminalidade, que está sendo realizado no auditório do Superior Tribunal de Justiça.

Apesar de enaltecer o importante papel da imprensa numa sociedade democrática, Ives Gandra criticou o padrão sensacionalista criado pela mídia, com a desculpa de mostrar o que o povo gosta. "A imprensa sensacionalista criou o padrão, que desfigura a sociedade deteriorando os valores morais, que o povo passou a desejar. Do mesmo modo como um viciado em drogas", afirmou.

Ele citou o artigo 221 da Constituição Federal para afirmar que nenhum dos quatro princípios norteadores da Comunicação Social é respeitado. Ives Gandra também é consultor jurídico da Associação Nacional de Jornalista.

"A imprensa sensacionalista não forma, nem informa, apenas deforma, quando publica o que há de mais negativo no indivíduo. E ressaltou. "Liberdade de imprensa não quer dizer liberdade da sociedade. Quantas pessoas podem ter artigos publicados pelos jornais? No máximo, geralmente, podem escrever para o espaço de leitores, ficando a critério do editor publicar ou não".

O professor de Direito Penal do Uruguai, Raúl Cervini, concordou e criticou a onipotência da mídia. "Quando a imprensa cria a 'sensação', qualquer possível retratação é ilusória e até mesmo hipócrita", observou. Para o 2º vice-presidente do Conselho Consultivo Internacional do Centro Internacional de Estudos Penais Econômicos, com sede em Montevidéu, a influência da mídia sobre a opinião pública pode ser bastante nefasta, na medida em que condiciona o pensamento de todos, determinando inclusive os assuntos sobre os quais devemos pensar.

Mas, segundo ele, é sobre a polícia que os efeitos são devastadores. "Há uma imensa vulnerabilidade do aparato policial sob a pressão da mídia". O policial é um indivíduo fragilizado diante do poder da imprensa", disse.

Raúl Cervini, que falou sobre a vitimização sofrida pelos operadores da Justiça, apresentou, inclusive, números de pesquisas acerca do assunto. "No Uruguai, 43% dos delegados e juízes consideram negativa a influência da mídia sobre os seus trabalhos. Na Argentina, 51% dos juízes federais reclamam da influência perturbadora da imprensa e, no Peru, 69% dos operadores da Justiça consideram que ela, geralmente, mais atrapalha do que ajuda".

Para o ex-ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, lembrando Max Weber, sobre a ética da convicção e a da responsabilidade, questionou a posição dos empregadores nos episódios do jornalista judeu morto no Paquistão, quando tentava descobrir as origens do terrorismo, e a do jornalista brasileiro Tim Lopes, que utilizava câmera oculta para filmar bailes funk no Rio de Janeiro. Tim foi morto por traficantes. Jarbas Passarinho criticou, ainda, livro do jornalista Caco Barcelos, sobre fatos pós-revolução, em 1968, no qual o jornalista teria ouvido apenas um dos lados.

Revista Consultor Jurídico, 8 de novembro de 2002, 9h36

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