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Chegou a hora

A Fundação do PT, os meninos e o povo no governo Lula.

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"Quero a utopia, quero tudo e mais. Quero ver nossa gente feliz. Se o poeta é o que sonha o real, vou sonhar com os frutos no quintal. Quero ver os meninos e o povo no poder". (Coração Civil, Milton Nascimento).

No início dos anos 80 eu fazia parte da juventude católica, e sonhava, como todos jovens daquela e desta época, com dias melhores, de mais justiça e igualdade. Nossa visão de mundo era primeiramente cristã, é claro, mas necessariamente passava por uma sociedade mais justa.

Era uma religiosidade engajada, comprometida efetivamente com o semelhante. Memoráveis foram os Encontros da Juventude, promovidos pelos padres do Colégio Dom Bosco. Muito de minha personalidade e minha visão de mundo vêm dali.

Um dia chegou um dos nossos e disse: "Olha gente, apareceram lá na faculdade uns barbudinhos, que fundaram um tal de Partido dos Trabalhadores, o PT. Precisam ver, os caras dizem tudo que a gente sempre pensou em dizer. E com uma coragem e um preparo inimagináveis".

No ano seguinte, em 1982, o PT concorreu usando o seguinte lema, largamente pintado nos muros: "Trabalho, terra e liberdade". Não obteve sucesso eleitoral, mas começou aí uma caminhada que levaria o partido ao poder em nível federal no pleito do dia 27/10.

O Partido dos Trabalhadores cresceu. Conquistou capitais e grandes cidades brasileiras. Provou que também sabe governar e, Porto Alegre, certamente, é o mais claro exemplo disso. O PT conquistou importantes governos estaduais, sendo o do nosso Rio Grande indiscutivelmente o mais importante.

É verdade também que algumas vezes expõe algumas contradições de partido grande. Coisas de quem adquire a maioridade, tendo já 22 anos. O resultado abaixo do esperado no Rio Grande do Sul é prova disso.

Entretanto, manteve-se sempre fiel ao discurso de mudanças, com forte visão social. Tem na ética e na moralidade na administração pública um de seus maiores fundamentados. É muito criticado, em decorrência de fatores ideológicos que traz em sua formação e na sua visão de sociedade e de Brasil. Não raro é amado, ou odiado...

Indiscutível, porém, o papel que o PT e seu maior líder, o sindicalista Luís Inácio Lula da Silva, tiveram na histórica política deste país nos últimos 20 anos. Não há quem não consiga reconhecer isso, mesmo os adversários.

O PT chegou ao poder. É hora de mostrar, agora em nível federal, que tem condições de superar os vergonhosos índices sociais de um país que, mesmo tendo uma das maiores riquezas naturais e humanas do mundo, é um dos mais injustos. Poucos, ou quase nenhum país as tem. Natureza abundante, o povo maravilhosamente constituído através de forte miscigenação étnica, cultural e racial. Ou seja, o Brasil tem tudo para dar certo.

Não esperemos milagres. Certamente, o novo governo vai enfrentar inúmeras dificuldades, tanto no plano externo quanto no contexto interno. Há uma reforma política e a reforma tributária por fazer.

Se em 1982 o lema era "Trabalho, terra e liberdade", hoje deve ser adicionada a inserção soberana do Brasil no contexto internacional, com uma globalização mais justa e humanizante, a diminuição dos juros, a educação e a saúde, entre tantas outras necessidades urgentes de nosso país.

O relevante, 502 anos depois da chegada dos portugueses, é a conquista do poder por um presidente que perdeu outras três eleições presidenciais, operário e nordestino, que conhece como poucos a realidade de nossa nação. Conhecimento de nossa realidade e de nossos problemas, capacidade e sensibilidade social, tem de sobra. Há uma imensa missão pela frente. Finalmente, os meninos e o povo no Poder. Todos torcem para dar certo, mesmo quem votou contra!

 é advogado com atuação em Direitos Intelectuais, mestre e doutor em Direito pela Unisinos, professor da Ulbra Gravataí e do Unilasalle

Revista Consultor Jurídico, 3 de novembro de 2002, 7h41

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