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7/3/2002

Primeira Leitura: tese de mexicanização das eleições é ridícula

Mexicanização

De todas as teses exóticas em curso, a que mais causa estranheza é a da mexicanização das eleições brasileiras. Segundo essa formulação, o PSDB seria o Partido Revolucionário Institucional, o PRI, que governou o México por mais de 70 anos, e José Serra seria o Ernesto Zedillo da vez.

Teoria conspiratória

A tese não resiste a cinco segundos de análise. Seja na forma, seja no conteúdo, seja na origem histórica, seja nos fatos em curso, nada aproxima as duas realidades. Insistir na comparação é ignorar o essencial e dar curso a teses conspiratórias as mais disparatadas. E o essencial é que há uma candidata à Presidência que, antes mesmo de chegar ao Poder, quer jogar a Constituição no lixo.

A natureza da crise

Vamos, então, ao essencial. Roseana ainda nem chegou ao Planalto e já pretende ir além da letra da lei. Primeira Leitura desafia qualquer jurista do país a demonstrar que a ação da PF na Lunus não tenha obedecido rigorosamente aos preceitos legais. Toda a espécie que causou foi, pois, de natureza política.

Lógica autoritária

Roseana lançou a suspeita – no que foi seguida por parte da mídia – de que o ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, a teria avisado previamente da ação da polícia se ela pertencesse aos quadros do PSDB. Vale dizer: diante da ilegalidade suposta que Ferreira cometeria em benefício de um tucano, exige para si mesma o benefício de uma ilegalidade real.

Desvios

Parte do jornalismo, diante de tal absurdo, faz o quê? Corre a alimentar as suspeitas de que assim é porque assim seria. Para tanto, não dispõe de um miserável fato. Pouco importa. A candidata do PFL pretende estar acima da Constituição antes mesmo de eleita. E, em certas áreas da cobertura política, isso parece normal.

Delírios

A tese da mexicanização tem várias faces. O delírio chega a tal grau que a FHC é atribuído até mesmo o esforço para manter o petista Luiz Inácio Lula da Silva como o eterno líder de uma oposição impossível. Como assim? A ilação, para começo de conversa, é desrespeitosa com Lula e com seu partido. O petista é candidato porque quer – e como o quer!...

Hipóteses

Mais: não é unânime no PT a consideração de que a verticalização das coligações – também atribuída a uma manipulação do TSE pelo Planalto para beneficiar Serra – prejudica o partido. Se ela conduzir a um acordo com o PSB de Garotinho, por exemplo, será que isso é assim tão bom para os tucanos?

Evidências? Ora...

Tornar até mesmo o sempre independente e insubordinável Lula uma peça do jogo maquiavélico de FHC é atribuir ao tucano poderes que nem mesmo ele, sendo quem é, acredita ter. E por que tais evidências não bastam para mudar o curso da análise em certos nichos?

O antidemiurgo

Porque, sem a hipótese conspiratória, essa gente vai, afinal de contas, fazer o quê? Uma boa trama rocambolesca é sempre menos aborrecida do que a vida real, do que o jogo de interesses objetivos e legítimos que se traduzem em partidos políticos, alianças, negociações etc. No fim das contas, é preciso que Serra (quiçá FHC) seja esse monstro do cálculo, que a todos enreda e engana. É uma espécie de versão em negativo do demiurgo.

Campos opostos

Sem tal elemento mágico, forçoso é reconhecer que, a partir da grita de Roseana, as candidaturas estão divididas em dois grupos. De um lado, os que não manifestaram interesse em afrontar a Constituição – Lula, Serra, Ciro, Garotinho e Itamar –; de outro, a pré-candidata do PFL, para quem a aplicação da lei deve antes ver “quem” para depois saber “o quê”.

Assim falou… Orestes Quércia

“A base aliada implodiu”.

Do ex-governador de São Paulo, do PMDB, sobre a anunciada saída do PFL da base de sustentação do presidente Fernando Henrique Cardoso. Para Quércia, isso favoreceria a tese de candidatura própria do PMDB.

Tudo é história

Parte da mídia difunde a versão de que Roseana estaria apenas se defendendo de mais um capítulo da tal “mexicanização” em curso no Brasil. A tese é ridícula. A estrutura partidária, a forma como Serra disputou a indicação interna, o espaço de que gozam os partidos de oposição no Brasil, a chance real de alguém não alinhado com os atuais mandatários, tudo, enfim, distingue o sistema político brasileiro daquele vigente no México nos mais de 70 anos em que o PRI esteve no Poder.

A prova de que tal esforço está em curso seria a famosa frase atribuída a Sérgio Motta, que previu 20 anos de Poder para o PSDB. Notável lógica essa: Motta anunciou uma conspiração há quase uma década e, para realizá-la a contento, combinou previamente as ações de todos os protagonistas. E dos antagonistas também.

Revista Consultor Jurídico, 7 de março de 2002.

Revista Consultor Jurídico, 7 de março de 2002, 9h36

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