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5/3/2002

Primeira Leitura: Roseana não tem credenciais para invocar democracia.

Amnésia coletiva

Enfurecida com a busca no escritório de sua empresa, Roseana Sarney disse que, se querem eleger Serra, melhor fechar o Congresso e nomeá-lo, como no regime militar. O que há de bom na ironia da governadora é a lembrança de que isso já não é possível no Brasil. E não por obra dos Sarney, que sempre souberam extrair boas vantagens de Congressos fechados e eleições indiretas.

Quem é quem

Tanto Serra como os Sarney sabem como funciona uma ditadura por nomeação. A diferença é que um estava no exílio, e os outros gozavam das facilidades do palácio. Enquanto um era obrigado a fugir, os outros ajudavam a nomear o condestável.

Calma lá!

O selo de autenticidade dos Sarney ainda está sujeito a confirmação para que Roseana venha falar em nome das Santas Escrituras Democráticas. A democracia também tem lá suas formalidades: exige autoridade histórica para que se fale em seu nome. O passado do papai aliado da ditadura não será lembrado ou por falta de memória e estudo ou por, como dizer?, escolhas editoriais.

Quanto poder!

Lembrar o retrospecto político de José Sarney poderia parecer uma encomenda. De Serra, claro! Afinal, virou moda atribuir ao candidato de FHC poderes quase sobrenaturais para conspirar e manipular pessoas, instituições e governos em prol de sua candidatura.

Autoridade democrática

Hão de lembrar que Serra e o PSDB são aliados dessa gente desde 1994. É verdade. Problema deles. Primeira Leitura nem defende nem justifica a aliança. Apenas se distingue aqui quem – e desde quando – tem autoridade para falar em democracia. Nada disso, porém, parece fazer diferença ao jornalismo da fofoca e da intriga.

Fora de moda

Analisar trajetória política, nesse tipo de jornalismo, se tornaria chato, maçante. E revestiria a disputa eleitoral de um certo viés político ultrapassado pelas demandas da modernidade que são... Bem, são muitas, desde que não seja essa bobagem de discutir o corte ideológico desse ou daquele.

Lógica do absurdo

Roseana diz que um governador do PSDB teria sido avisado previamente da diligência da PF. E isso passa como coisa normal: diante da suposta ilegalidade que seria cometida em favor dos tucanos, ela reivindica para si uma ilegalidade de fato. É de estarrecer. Questionamento a respeito? Nenhum!

Debaixo do colchão

Mais: Roseana e o marido, posto que sócios, parecem não confiar no sistema bancário brasileiro, especialmente no do Maranhão. Não é qualquer um que mantém R$ 1,5 milhão na gaveta... Mas fiquemos todos tranqüilos: é tudo culpa do Serra...

Miséria jornalística

Quem faz política para valer e não está atrás de factóide já voltou à prancheta depois da decisão do TSE de verticalizar as eleições – como Lula, por exemplo. O petista, afinal, tem mais a dizer do que se colocar como vítima de um grande complô. Complô a que dá curso certo tipo de imprensa que, cansada de fazer o jornalismo da miséria (tudo cansa...), resolveu mergulhar de vez na miséria do jornalismo.

Receita

Se o jornalista encerrou sua reportagem ou sua coluna de notas, mas falta o veneno sem o qual política vai ficar parecendo coisa feita também por gente decente, é só pegar aquela piada infame ouvida na redação, atribuir a alguma fonte de Brasília e redigir.

Manual de festa

Fundamental: o gracejo tem de ser contra Serra. Se envolver Lula, o jornalista dará a impressão de ser reacionário e politicamente incorreto, o que pega mal em festinhas; se contra Roseana, podem suspeitar de que ele foi cooptado pelo Planalto... Outra exigência: dizer que a gozação foi ouvida “nos corredores do Congresso”. Afinal, conspiração ou sacanagem política sem corredor não têm graça.

Assim falou… Roseana Sarney

“Lá, seqüestraram a candidata. Aqui, querem seqüestrar a minha dignidade.”

Da governadora maranhense, presidenciável do PFL, comparando-se a Ingrid Betancourt, candidata seqüestrada pelas Farc na Colômbia. O estranho feminismo não se sustenta – a busca no escritório de Roseana foi feita por ordem judicial, e ela deve explicar por que teme a apreensão dos papéis da empresa.

Estava escrito

A democracia que aí está, que não permite a nomeação, pura e simples, nem de Serra nem de qualquer outro, é conseqüência da militância democrática de gente como FHC, Lula, Serra... Dos Sarney é que não foi. José Sarney chegou a defender, em artigo na Folha de S.Paulo em 7 de dezembro de 1983, o direito de a ditadura eleger indiretamente o presidente. A despeito das ruas. Sarney só deixou a nau dos militares quando ela começava a fazer água com o pesadíssimo Paulo Maluf.

Revista Consultor Jurídico, 5 de março de 2002.

Revista Consultor Jurídico, 5 de março de 2002, 9h39

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