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Ação conjunta

Nascido de uma família de classe média, o senador Luiz Estevão começou a fazer fortuna quando assumiu os negócios do pai adotivo, uma pequena revendedora de pneus chamada OK. Queria ser cientista, como Einstein, e chegou a ser aprovado no vestibular para o curso de física. Piloto de carros de corrida deu o grande salto em 1982, quando seu sogro, que era dono de uma empresa de poupança de Brasília, a Colméia, quebrou, deixando um rombo de 350 milhões de dólares. Para esconder o patrimônio, passou tudo para o nome de Estevão, que, em cerca de dez anos, transformou a loja numa rede e diversificou os negócios, principalmente no ramo da construção civil. Tem uma mansão avaliada em 7 milhões de dólares e um jatinho particular. Até 1989, diante do fenômeno Fernando Collor, era um empresário bem-sucedido para os padrões brasilienses. Com a eleição do amigo que conheceu ainda como estudante secundarista em Brasília, seu raio de ação empresarial se multiplicou e sua influência também. Ganhou autorização do Banco Central para criar a própria instituição financeira, o Banco OK, e passou a executar grandes obras. Em 1992, o então governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, decidiu construir um metrô. Grandes empreiteiras, como a Odebrecht, a Camargo Corrêa e a Andrade Gutierrez, formaram um consórcio para tocar a obra, orçada inicialmente em 600 milhões de dólares. Embora não fizessem parte do grupo, as empresas de Luiz Estevão foram subcontratadas para construir a maioria das estações. O senador, usando das amizades que tinha nos governos federal (Collor) e local (Roriz), conseguiu ser o maior empreiteiro do metrô, apesar de não integrar oficialmente o consórcio vencedor da licitação. O metrô até hoje não funciona e já consumiu mais que o dobro do orçamento inicial. Durante o curto período do governo Collor, Estevão também fechou excelentes negócios com os fundos de pensão de empresas estatais. Construía prédios e vendia aos milionários fundos. Ergueu um enorme centro empresarial numa das áreas mais valorizadas de Brasília. Um grupo de fundos de pensão comprou o empreendimento, que acabou ficando dois anos embargado. A OK fez um prédio diferente do projeto que havia apresentado. A fiscalização foi conferir e encontrou, entre outras irregularidades, um andar a mais. Os fundos entraram na justiça contra o senador e querem receber uma indenização de 50 milhões de dólares, o equivalente ao valor do prédio inteiro, apenas pelo atraso na entrega da obra. Fora isso, como um Midas, tudo em que Estevão põe a mão acaba gerando lucro ­ para ele. Até em cima do que não faz. Há duas semanas, o governo de Brasília queria pagar 13 milhões de reais ao senador por uma obra que ele deveria ter concluído há quatro anos. Ele era sócio do ex-deputado Sérgio Naya e do deputado Paulo Octávio, do PFL do Distrito Federal, na construção de um shopping. Desistiu da obra e ainda pediu indenização. Foi nessa mesma época que o senador tomou gosto pela política. Desconhecido para a maioria dos brasilienses, criou a Fundação Luiz Estevão. Distribuía sopa, leite e material escolar para as crianças da periferia. A caridade é claro, era deduzida do imposto de renda. Passou com folga no primeiro teste eleitoral, embora um grupo de procuradores tenha tentado cassar sua eleição por abuso de poder econômico.

Em 1994, foi o deputado distrital mais votado. Nesse período se envolveu com uma questão muito polêmica. Conseguiu aprovar um projeto em que uma de suas fazendas foi transformada em área urbana. As terras se valorizaram 300 vezes. Das catorze empresas do senador Luiz Estevão, três estão inscritas no Cadastro de Inadimplentes do governo, o Cadin, que registra o nome de empresas ou pessoas que têm dívidas com órgãos públicos. Dever, por si só, não é nenhuma mancha no currículo de uma pessoa. O problema é que, em se tratando de Luiz Estevão, não é dívida.

É calote mesmo. Juntas, as três empresas do senador têm contas a ajustar com o Ministério da Fazenda, Caixa Econômica Federal, Receita Federal, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, e até o Banco Central. O próprio senador Luiz Estevão constava como inadimplente no Cadin até abril deste ano. Ao ser informado de que VEJA preparava uma reportagem sobre parlamentares caloteiros, quitou a dívida de 56 000 reais com a Receita Federal. Estevão chegou ao Senado com uma ficha partidária de bons serviços prestados. No ano passado, ele coordenou uma bem-sucedida operação de destruição das pretensões presidenciais do governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Na convenção do PMDB, na qual o partido decidiu continuar no barco de Fernando Henrique, abrindo mão de uma candidatura própria à sucessão presidencial, Itamar Franco, que era contrário à idéia, foi humilhado. Durante os quinze minutos em que discursou, o ex-presidente ouviu vaias e xingamentos. Por trás da claque estava o então deputado distrital Luiz Estevão. Oito mil "militantes" do partido foram juntados na periferia de Brasília para defenestrar Itamar durante a convenção. Resultado: Itamar saiu humilhado e o PMDB decidiu apoiar FH na reeleição. O resto da história já é conhecido. O planejamento da missão aconteceu na casa do amigo Roriz e dele participaram o presidente nacional do PMDB, Jader Barbalho, e o ministro dos Transportes Eliseu Padilha. Estevão ganhou fama de bom operador e trânsito na esfera mais poderosa do partido.

Revista Consultor Jurídico, 8 de fevereiro de 2002, 22h11

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