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Pesquisas & Eleições

O pessimismo da mídia depois dos inícios de mandatos

Se houvesse vacina contra má vontade compulsiva da mídia, seria bom administrar uma boa dose agora. Pelo andar da carruagem, não passará muito tempo após a posse de Luiz Inácio Lula da Silva até que se comece a transmitir a idéia de que o novo presidente e o PT estão abandonando seus compromissos de campanha. O fenômeno, segundo um especialista citado por Orjan Olsen, diretor do Instituto Ipsos-Opinion, está caracterizado na cobertura dos inícios de mandatos nos Estados Unidos.

Olsen está entre os que repelem a idéia de que o eleitorado se deixa manipular com facilidade e de que a mídia é possuída por alguma tara congênita. Prefere ressaltar as dificuldades situadas na dinâmica do processo político e da prática jornalística. E cita uma bibliografia típica de quem fez doutorado sobre formação da opinião pública, "teoria da agenda", livros aos quais só especialistas costumam ter acesso: The Reasoning Voter: Communication and Persuasion in Presidential Campaigns, Samuel Popkin, 1991; The Mass Media Election: How Americans Choose Their Presidente, 1980, e Out of Order, 1993, ambos de Thomas Patterson.

Como esses autores, Olsen está convencido de que o eleitor é um ser racional que faz suas escolhas dentro do quadro de possibilidades oferecido pelo processo.

Patterson, que em seu livro de 1980 já menciona factóides, com o nome de "pseudo-eventos", conceito que toma de um livro de 1972 (The Image, de Daniel Boorstin) - "acontecimentos que não são espontâneos, mas criados simplesmente para atrair a atenção da imprensa"- , define de forma simples o papel da mídia nas campanhas eleitorais americanas: "O que o eleitor vê não é a verdadeira campanha, mas a versão dela dada pela mídia".

Em seu livro de 1993, Patterson faz uma constatação que pode ser oportuna, a algumas semanas da posse de Lula. Num posfácio após o fim do primeiro ano do mandato de Bill Clinton, em abril de 1994, ele confirma uma observação da introdução do livro: é falsa a idéia transmitida sistematicamente pela mídia americana de que não se pode confiar na fidelidade dos candidatos às promessas da campanha: "Presidentes recém-eleitos cumpriram a maior parte das promessas feitas quando eram candidatos", afirma.

Clinton, que nos primeiros seis meses de mandato teve só 34% de notícias avaliadas numa pesquisa como positivas (66% negativas), conseguiu fazer com que o Congresso apoiasse suas posições em 88% das votações de 1993, medida superada apenas por Dwight Einsenhower em 1953 e Lyndon Johnson, em 1965. Mesmo assim, na avaliação da mídia, ele não estava honrando os compromissos assumidos.

Não se trata de propor habeas corpus preventivo para o governo do PT, o que seria péssimo para o país, mas de reivindicar um acompanhamento equilibrado, de modo que não haja, como tem repetido o governador paulista Geraldo Alckmin referindo-se aos partidos, um "terceiro turno" - na verdade, a tentativa de começar em janeiro de 2003 o processo eleitoral de 2006.

Fonte: Observatório da Imprensa - Mauro Malin

Revista Consultor Jurídico, 4 de dezembro de 2002, 12h00

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