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Tempo perdido

Escravo que conseguiu fugir de fazenda no PA conta sua história

O peito quebrado e o medo são os companheiros do maranhense Antônio Oliveira da Silva Souza, 25 anos, mantido escravo em fazendas de Marabá, município do Pará, durante 17 anos. Ele fugiu do cárcere há cerca de um mês, e hoje, em São Luís, encontra-se sob a proteção da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Maranhão (Fetaema) e da Comissão Pastoral da Terra.

Segundo Antônio, ele é apenas um entre as centenas de pessoas (homens, mulheres e crianças) mantidas sob regime de escravidão no estado do Pará. Diz que o seu peito foi quebrado por jagunços de uma das fazendas por onde passou. "Eles bateram tanto no meu peito, a coronhadas, que quebraram minhas clavículas", conta apontando o peito envergado, e quase encostando um ombro no outro.

Nos 17 anos em que viveu como escravo, cinco dos quais aprendendo o ofício da escravidão - manejar machado e foice e ainda não ter direito a falar ou receber salário, era levado de fazenda em fazenda para fazer o roçado para a plantação de maconha e papoula (planta utilizada na fabricação da heroína). As grandes fazendas do Pará, segundo Antônio, servem ainda para o processamento da cocaína.

O advogado da Fetaema, Luís Antônio Câmara Pedrosa, diz tratar-se (pelos relatos do "escravo fugitivo") de uma grande rede de agentes a serviço do trabalho escravo, ligada ao tráfico internacional. "Pelo que ele nos contou, são estruturas de grandes fazendas agropecuárias, mas que na realidade vivem do trabalho escravo e da plantação de maconha", informou o advogado, ressaltando o fato de que os escravos são transportados de uma fazenda para outra em pequenos aviões.

"Eu estava sentado na porta da minha casa, com meus dois irmãos menores, quando apareceu aquela senhora dizendo que não podia ter filhos e gostaria de adotar um. Minha mãe me entregou para ela. Lembro que tinha na época uns oito anos. Depois que entrei no carro, a mulher parou em outros povoados e relatou a mesma história pra outras mães. Comecei a achar estranho aquela mulher querer tantas crianças.

Entre a cidade de Barreirinhas, de onde a mulher me pegou, até Urbano Santos (também município do Maranhão), ela pegou cinco crianças. De repente a mulher sai do carro e, poucos segundos depois, dois homens entram no carro e levam a gente para uma fazenda. Nesse lugar, aprendemos a manejar foice, machado e a lidar com a terra. Vivi assim dos oito aos treze anos. A partir dos 13 anos começamos a viver realmente em regime de trabalho escravo. Eu só tinha a roupa do corpo.

Durante o dia as dezenas de jagunços nos vigiavam. A nossa comida era uma espécie de fubá, pela manhã; e na hora do almoço (acho que 12h30, pela posição do sol) nos davam arroz, feijão e alguma coisa que parecia carne, mas era horrível. Só comia mesmo por causa da fome. Quando terminávamos o roçado em uma fazenda, nos levavam pra outra. Eles diziam que iam nos vacinar. Mas, a vacina era apenas pra gente adormecer.

Antônio Oliveira conta que já não estava mais agüentando a vida que levava. Pessoas sendo espancadas e até mesmo executadas na sua frente. Lembra que certa vez os jagunços mataram um rapaz (chamou de Júnior) na sua frente. "Eles o mataram com um tiro simplesmente porque viram ele conversando com a gente. Depois que o executaram disseram que se pegassem qualquer um de nós conversando que iam fazer o mesmo conosco", relata o fugitivo.

Segundo Antônio, ninguém sai daquelas fazendas vivo. "Quando a pessoa já não serve mais pro serviço eles as matam", informa ele. Conta que certa vez um grupo de rapazes se uniram e foram pedir ao menos um salário pelo seu trabalho. "O que ganharam em troca foi mais humilhação e maus tratos. Um dos rapazes teve o braço direito decepado. Fiquei horrorizado quando vi um dos jagunços levantando o machado. Quando o machado desceu o braço dele caiu no chão", relembra, dizendo que não sabe como o rapaz sobreviveu, pois o toco que sobrou do braço ficou roxo por vários meses.

Todos esses fatos levaram Antônio Oliveira, juntamente com outros quatro rapazes, a arquitetar uma fuga. Eles cavaram um buraco junto à cerca da fazenda (nome não revelado para não atrapalhar nas investigações) e golpearam dois jagunços na cabeça para poder fugir. Chamaram ainda outras pessoas mantidas como escravas para fugir, mas todas ficaram com medo de serem mortas pelos jagunços, e resolveram ficar na fazenda. Fora da fazenda, os cinco rapazes andaram durante cinco dias por dentro do mato. Depois disso tiveram que atravessar um grande rio. Chegaram em fim a uma rodovia onde passavam muitos carros. Durante dois dias pediram carona nas estradas, até que um homem parou e os levou para Imperatriz. De Imperatriz foram para Vargem Grande, onde contaram a policiais parte da história.

Os policiais encaminharam Antônio Oliveira para São Luís, para que as autoridades da capital tomassem providências, e os outros quatro rapazes foram encaminhados para os seus Estados de origem (Antônio não soube informar que estados foram estes). Além de viver em liberdade, Antônio diz que o que mais deseja agora é encontrar seus pais (Pedro Oliveira dos Santos e Raimunda Oliveira da Silva Souza). Saber direito porque sua mãe o entregou àquela mulher. Se o vendeu ou apenas o entregou para que tivesse uma vida melhor. "Se por acaso tiver me vendido, vou odiar ela pro resto da vida", finalizou.

O ex-escravo das fazendas do Pará está agora sob a proteção de instituições que lidam com a questão da terra no Maranhão. Antônio já foi ouvido pelo Procurador da República Juracy Guimarães. Seu caso também já foi encaminhado para o Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo, que é vinculado ao Ministério da Justiça. Segundo o advogado da Fetaema, Luís Antônio Câmara Pedrosa, o Grupo Móvel já está investigando algumas fazendas do Pará para verificar as denúncias.

Pedrosa diz que, pelas informações de Antônio Oliveira, as mulheres que são mantidas também como escravas têm ainda que manter relações sexuais com os jagunços. Estas ficam grávidas, os filhos crescem e passam a servir também como escravos. A situação é a pior que se possa imaginar, lamenta o advogado . Ele diz acreditar que essa rede de tráfico exista há dezenas de anos, centenas de pessoas já foram mortas e outras tantas continuam a viver como escravas e ninguém faz nada para acabar com os crimes.

O presidente do Tribunal Regional do Trabalho, Alcebíades Tavares Dantas, considerou de extrema gravidade a informação sobre a situação do trabalhador maranhense Antonio Oliveira de Souza escravizado por 17 anos em uma fazenda no município de Marabá (PA). "É chocante e inadmissível", declarou o presidente.

História de maranhense escravizado é trágica, diz Fausto

O presidente do Tribunal Superior do Trabalho, ministro Francisco Fausto, reagiu com indignação à notícia. "A notícia vinda do Maranhão é a mais trágica de todas as publicadas até agora pela imprensa e de todas as que chegaram ao gabinete da Presidência do TST", afirmou o ministro Francisco Fausto.

"A história contada por esse trabalhador revela um drama humano de densidade emocional extraordinária, porque se trata da vida de uma criança doada a um fazendeiro e criada como um animal, ou pior, à base de maus tratos e alimentada com ração."

Fonte: O Imparcial - Selma Rosa

Revista Consultor Jurídico, 4 de dezembro de 2002, 13h24

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