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Em ebulição

Eduardo Pizarro Carnelós renuncia à presidência da Aasp

O presidente da Associação dos Advogados de São Paulo (Aasp), Eduardo Pizarro Carnelós, renunciou ao cargo nesta quarta-feira (4/12). Em sua carta de renúncia, Carnelós acusou a existência de uma manobra para não reelegê-lo ao comando da entidade, uma prática que faz parte da tradição da casa.

Sem citar o nome de seu vice-presidente, Aloísio de Lacerda Medeiros, Carnelós identifica-o em sua carta, lida como discurso na reunião do Conselho desta quarta-feira (4/12), como autor da conspiração que gerou sua saída.

Aloísio se uniu a conselheiros que foram seus adversários e que também não se alinhavam a Carnelós, para atingir seu primeiro objetivo: bloquear a liderança do então presidente. Sua meta principal, contudo, é disputar a presidência da OAB paulista.

Na história da Aasp, afirmou Carnelós, a reeleição do presidente para um segundo mandato "somente não se deu quando não tinha ele mais mandato a exercer no Conselho, ou, num único caso, quando, antes mesmo do final do mandato de presidente, licenciou-se por motivos pessoais".

Carnelós disse que passou a ser hostilizado por alguns conselheiros e tratado até mesmo de forma desrespeitosa. "Por mais que eu me dedicasse, e fizesse cumprir as deliberações deste Egrégio Conselho, foram-se avolumando episódios que culminavam com censura de conselheiros a minhas condutas", afirmou.

A manobra para lançar Aloísio para disputar o comando da OAB-SP pela situação seria a solução para o impasse em que se converteu a sucessão na entidade - onde vicejam quatro candidaturas - juntando um grupo da OAB com outro da Aasp.

Entre as vantagens de Aloísio estaria o fato de ele ter penetração e aliados tanto no grupo de José Roberto Batochio, quanto no de Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, os dois chefes de clãs mais conhecidos da advocacia no Estado. Aloísio teria a simpatia até mesmo de integrantes da ala de Rubens Approbato Machado.

Leia a carta de renúncia de Carnelós:

São Paulo, 4 de dezembro de 2002.

AoEgrégio Conselho Diretor da Associação dos Advogados de São PauloEm sessão

Hoje, todos já sabem que há, por parte da maioria deste Colegiado, a disposição de não me reeleger à presidência da Associação. Praxe - ou costume - amparada por disposição estatutária, a reeleição do presidente somente não se deu quando não tinha ele mais mandato a exercer no Conselho, ou, num único caso, quando, antes mesmo do final do mandato de presidente, licenciou-se por motivos pessoais.

Muitos associados - alguns, inclusive, ex-Conselheiros e ex-Presidentes - têm-me perguntado quais fatos teriam ocorrido, a justificar a quebra desse costume, exatamente quando a Associação vive momento de intensa atividade e muita realização, com a manutenção das inúmeras conquistas obtidas nos últimos anos e a adição de algumas outras; para as perguntas, eu não tenho respostas, mas Vv. Exas., certamente, as terão. E as terão, é certo, pois, sendo todos seres honrados - como são -, jamais seriam movidos por caprichos pessoais; somente tomariam tão grave decisão - cujo significado verdadeiro é o impedimento do presidente eleito por este Egrégio Conselho - se fundados em sólidas e inamovíveis razões. Bem o sei, e disto não posso duvidar.

O ilustre Conselheiro que me sucederá, por alguma razão que também há de ser nobre, nunca me comunicou sua decisão de alterar o que entre nós fora acordado ano passado. Explico: Em mais de uma oportunidade, eu disse que não fazia questão de ser escolhido o presidente, e o apoiaria. S. Exa., porém, disse somente pretender presidir a Associação após eu exercer a presidência; aventei, então, a hipótese de ser presidente por apenas um ano (embora ainda me restasse tempo, no Conselho, para cumprir o segundo mandato), para que ele pudesse presidir nos dois últimos anos de seu mandato como conselheiro. Recusou também, dizendo que seria presidente em seu último ano no Conselho.

Tudo isso foi testemunhado por outros diretores, sob o aval insuspeito do então Presidente Mário de Barros Duarte Garcia, que me havia honrado com a indicação de meu nome para sucedê-lo. A atual Diretoria, convém que eu diga, foi fruto de convergência de opiniões de todos nós, inclusive o meu sucessor, em cujo escritório, aliás, realizou-se a reunião que definiu sua composição.

Apesar disso tudo - e sem que eu consiga vislumbrar a razão para a mudança de rumo -, o fato é que o ilustre Conselheiro que me sucederá, embora compusesse a Diretoria como meu substituto estatutário, opôs-se a tudo quanto propus, desde o início do ano. Opôs-se abertamente, algumas vezes, mas opôs-se, muito mais, fazendo silêncio nos momentos de decisão, para somente depois expressar sua contrariedade - isso fez, inclusive, publicamente, em vários momentos. Sem entender o que movia S. Exa., procurei sempre o caminho do entendimento, inclusive pedindo o auxílio de outros diretores, e até mesmo do ex-Presidente Mário de Barros Duarte Garcia. Nenhum sinal de entendimento, contudo, recebi daquele ilustre Conselheiro.

No decorrer do ano, passei a ser hostilizado por alguns conselheiros - no início de forma velada, que evoluiu para tratamento desrespeitoso não apenas a mim, mas à própria Presidência da Associação. Por mais que eu me dedicasse, e fizesse cumprir as deliberações deste Egrégio Conselho, foram-se avolumando episódios que culminavam com censura de conselheiros a minhas condutas. À falta de fato concreto, certa feita se disse, em reunião deste Egrégio Conselho, que ele estaria esvaziado, pois que os assuntos importantes não vinham sendo trazidos à sua consideração. Até hoje, porém, ninguém aceitou o desafio - que fiz naquele mesmo momento - de compulsar as atas de reuniões dos anos anteriores e, comparando-as com as deste ano, constatar a existência de eventual diferença entre os temas tratados antes e agora.

Conversei com diretores, na tentativa de entender o que se passava. Nas primeiras conversas, meus interlocutores diziam também não saber o que havia, mas manifestavam esperança de que tudo se resolvesse; posteriormente, os mesmos interlocutores passaram a vislumbrar uma centralização das decisões em mim e noutros dois diretores, sem, contudo, serem capazes de apontar um único fato concreto que amparasse o que qualificavam como uma "sensação" que os atingia.

Passei, então - e já mais recentemente -, a ouvir referências vagas à formação de movimento destinado a impedir minha reeleição, para eleger o ilustre Conselheiro que me sucederá. Procurei inúmeros conselheiros, aos quais relatei os fatos ocorridos - e a eles nada pedi, a não ser que me ajudassem a manter íntegra a Associação. De alguns, recebi manifestações de solidariedade, de apoio; de todos, ouvi o lamento por ter a discórdia sido instalada em nosso seio, sem qualquer motivo até agora apresentado.

Pois bem: Aproximando-se o momento da eleição para o terço renovável do Conselho, e depois para a Diretoria, fez-se necessário que eu procurasse confirmar os apoios anteriormente declarados; foi quando, para minha surpresa, alguns - homens honrados que são, disseram de forma clara - comunicaram-me que não votarão em mim; outros - tão honrados quanto aqueles, mas talvez mais preocupados em me poupar - não me comunicaram diretamente, mas fizeram chegar a mim o recado, também muito claro.

A par disso tudo, vários outros episódios reveladores de desapreço à minha presença na Presidência se verificaram, atingindo-me menos que a própria Presidência, o que, evidentemente, somente causa prejuízos à Associação, inclusive porque não se têm limitado tais episódios às fronteiras da entidade, que foram há muito ultrapassadas com os boatos e os diz-que-me-disse.

Eu, Senhores Conselheiros - que há oito anos tenho a honra de integrar este Conselho, tempo durante o qual tenho me dedicado a contribuir (a despeito de minhas inequívocas e reconhecidas limitações) para o crescimento da Associação dos Advogados de São Paulo, a qual cada vez presta melhores serviços e atua com mais firmeza na defesa dos fundamentos do Estado Democrático de Direito -, ao constatar que a maioria deste Egrégio Conselho não me quer mais na Presidência, não devo insistir em nela permanecer. Se a prévia verificação numérica evidencia o resultado, não há razão para submeter a entidade ao desgaste de disputa que seria inócua. Pior ainda seria eu pretender continuar a exercer a presidência, se alguns dos honrados membros do Conselho já não reconhecem em mim a qualidade de presidente, o que somente enfraquece a Associação.

Refletindo sobre tudo isso, lembrei-me de VIEIRA, que no Sermão do Mandato sustenta que a maior fineza do amor de Cristo não terá sido o morrer pelos homens, mas o ausentar-se do convívio deles, pois que tendo Ele amado mais os homens que a própria vida, mais sofreu se ausentando, do que morrendo. Inspirando-me nesse ensinamento, concluo que devo, por amor à Associação dos Advogados de São Paulo, deixar já sua Presidência, para, assim, fazer desde logo - mais uma e pela última vez - a vontade deste Egrégio Conselho. E deixando a Presidência, devo também deixar este Egrégio Conselho; afinal, se não posso mais presidir, apesar de estatutariamente poder, não devo também continuar a gozar a companhia de todos os honrados membros deste Colendo Colegiado.

Por tais motivos - que não serão tão nobres quanto os que levaram este Egrégio Conselho a decidir não me reeleger, mas são inspirados pelos meus mais sinceros propósitos de acertar -, renuncio, neste ato, aos mandatos de Presidente e de Conselheiro da Associação dos Advogados de São Paulo, para que ela, sem mim e sob a condução de Vossas Excelências, possa continuar a ser a entidade motivo de orgulho de todos os advogados seus associados.

Agradeço a todos os que me apoiaram, inclusive quando me criticaram. E agradeço, também, a todos os funcionários pelo empenho, pela lealdade e pela paciência com que suportaram minhas incessantes exigências na busca do acerto constante.

Atenciosamente,

Eduardo Pizarro Carnelós

Revista Consultor Jurídico, 4 de dezembro de 2002, 10h17

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