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Ataque e contra-ataque

Mônica Bergamo diz que Kfouri chutou a bola para fora

Vez por outra, a aparente cordialidade entre jornalistas dá vez a fricções que vêm a público e servem para os mortais comuns enxergarem as diferenças que, normalmente, só iniciados percebem nas entrelinhas do dia-a-dia.

Na última semana, pelas páginas da revista Carta Capital e, posteriormente, no site Observatório da Imprensa, o cronista esportivo Juca Kfouri acusou a jornalista Mônica Bergamo de reproduzir uma mentira em sua coluna, na Folha de S.Paulo - uma das mais lidas do país.

O pivô da discussão foi um fato ocorrido em 1989: a edição do debate entre Lula e Collor, veiculada pela TV Globo, em horário nobre, na véspera da eleição presidencial. Considerado um dos capítulos mais indecentes da história política recente do país, os trechos pinçados do debate favoreceram decisivamente a vitória de Collor.

Tão flagrante foi a manobra que, em seguida, toda a legislação eleitoral foi refeita para impedir a repetição desse tipo de malversação.

Em sua coluna, Mônica Bergamo, profissional respeitada, com passagens marcantes pelas revistas Playboy, Veja-SP, Veja e pela direção da TV Bandeirantes em Brasília, afirmou que Alberico Souza Cruz, "é considerado competente, mas não consegue se livrar do fantasma de ter sido o responsável direto, em 89, pela famosa edição do debate entre Lula e Collor na TV Globo."

Em defesa de Alberico, Kfouri escreveu (leia o texto, abaixo) que a edição do debate fora de autoria de um subalterno de Alberico que avocou para si toda a responsabilidade. Segundo essa pessoa, Ronald de Carvalho, nenhum de seus chefes soube o que fora editado antes de o programa ir ao ar, embora se tratasse de uma missão de estado-maior, reservada a comandantes.

Mônica poderia ter respondido que não afirmou ter sido Alberico o autor da lambança, mas que ele é perseguido por essa acusação. No entanto, resolveu ir além do que precisava (leia a resposta de Mônica, após o texto de Kfouri).

Ronald de Carvalho, corajoso e leal, evitou invocar a "lei da obediência devida" para livrar sua reputação. O problema é que poucos, como Kfouri, acreditaram nele. Afinal, o responsável na Globo pelas relações com o mundo da política era Alberico.

Pela "lei da obediência devida", os militares argentinos que praticaram atrocidades livraram-se de suas culpas imputando-as a seus chefes, os comandantes da ditadura militar no país. Em Nuremberg, essa tentativa não colou. Mas é certo que, em ambos os casos, os subordinados só tentaram empurrar suas culpas para seus chefes porque estes já estavam presos ou mortos.

No caso brasileiro, um dos argumentos para isentar Alberico é o de que ele sequer estava no Rio de Janeiro, quando se editou o debate. Portanto, não poderia ter cuidado do assunto. Algo como dizer que Hitler nada teve a ver com o que aconteceu em Auschwitz porque ele não estava lá.

A idéia de que Ronald Carvalho possa ter feito tudo sozinho remete à recente decisão de um juiz paulista, para quem o juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto foi responsável sozinho pelo desvio da dinheirama destinada às obras do fórum trabalhista de São Paulo.

Leia o ataque de Kfouri e o contra-ataque de Mônica

LULA vs. COLLOR

A verdade sobre o debate de 1989

Juca Kfouri (*)

Chato, mas necessário, começar com um chavão, e do nazista Josep Goebbels: "Uma mentira mil vezes repetida acaba por virar verdade".

Tem sido assim com a famosa, e diabolizada, edição do debate entre Collor e Lula, no Jornal Nacional, invariavelmente atribuída, sem ser verdade, ao jornalista Alberico Souza Cruz - então terceiro homem na hierarquia do jornalismo global, abaixo de Armando Nogueira e Alice Maria.

Outro dia mesmo, a inverdade foi publicada na coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo [19/7/02, pág E 2].

O que espanta é saber, e não é hoje, que o responsável pela edição, que teria favorecido Collor, o jornalista Ronald Carvalho, assume inteiramente a responsabilidade pelo compacto do debate.

E assume publicamente, sem fazer segredo, até porque não vê motivo algum para se envergonhar do trabalho que fez, como Editor de Política do JN.

O depoimento que segue abaixo é dele, colhido na sexta-feira, 9 de agosto de 2002.

"Por mais que eu assuma, não adianta. O Alberico nem estava no Rio, porque acompanhou o debate em São Paulo. Uma primeira edição do debate foi ao ar no jornal Hoje. Achei que estava desequilibrada, achei que não mostrava a vantagem do Collor.

Disse isso a quem editou, o jornalista Wianey Pinheiro, que me respondeu já ter o OK da Alice.

Só que, depois que foi ao ar, ela me chamou e disse que a edição resultara desequilibrada, e pediu que fosse refeita para o JN.

Eu mesmo tratei de refazer a edição, porque sabia que era uma missão delicada e não quis expor ninguém. Pensei assim: vou editar como se fosse um jogo de futebol. Se foi 5 a 1, e foi 5 a 1 para o Collor, mostrarei os cinco gols dele e o gol do Lula.

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Revista Consultor Jurídico, 26 de agosto de 2002, 11h55

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