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Interatividade

Interatividade: convergência, regulamentação e usuário

As convergências entre suportes e media eletrônicos, da ordem do dia, prometem mudanças assombrosas no cotidiano das pessoas. Seu produto-chave, a TV Digital, surge como o formato que estabelecerá novos padrões no consumo de bens, e sobretudo, nas possibilidades de uso e distribuição das imagens. Seus atrativos seriam a possibilidade de "interação" com o aparelho, mas também a possibilidade de se ver os programas a hora que se bem entendesse, no lugar que se desejasse. Tudo isso com qualidade de áudio e imagem superiores, claro.

Com a quebra do padrão de difusão de imagens para massas indistintas (modelo da TV aberta), dado que a TV Digital opera com a segmentação (muito canais, fragmentando os montantes sobrenaturais de Ibope de um só programa), é de se perguntar de onde sairiam os valores de financiamento de um tecnologia que, caríssima, aparentemente rompe com o modelo de financiamento atual das TVs, donas de 57% do bolo publicitário.

A palavra mágica é: Interatividade. Parceira da convergência, é quem explica de onde virá a bufunfa nesse novo modelo de transmissão. Possibilitando ao telespectador comprar os gadgets que lhe são apresentados, e somada a isto verdadeiros portais de consumo e prestação de serviço, esse suporte promete atingir o consumidor com máxima eficiência. Canal de esportes? Anuncie chuteiras. Sem dispersão: clique, pague e consuma.

Com a quebra das empresas ponto com, o computador deixou de ser o suporte chave deste processo de massificação tecnológica. Tal é agora creditado à TV Digital interativa, um misto de TV, PC e telefone, de preferência celular. A idéia da convergência, aliada a de interatividade, surge como o ovo de ouro para expansão deste mercado em situação bastante complicada. O problema é o que estas premissas escondem. Para usuários de computador, que prezam por uma capacidade de alteração e de gerenciamento daquilo que usam e fazem, talvez estas novas tecnologias não se mostrem um oásis digital, como querem aparentar.

A interatividade proposta pela TV Digital, bem como a 'internetificação' associada ao celular, trabalham de forma direta e objetiva com o consumo, tanto em ato quanto em idéia. Netbanking, compras em supermercado online, download de filmes na locadora BlockBuster virtual e assim por diante são metas da TV Interativa, que funcionam sobre o auspício de acesso mais rápido e confortável aos bens de consumo. Em contrapartida, as redes baseadas no que ficou conhecido como internet trabalham (ou trabalhavam) com outra ordem de interesse. Compartilhar música, vídeos, textos. Conversar, fazer amigos, dar e receber ajuda são características estruturais e estruturantes das redes, que não funcionam sobre um princípio mercadológico, do consumo imediato e acachapante. O que a TV interativa e a geração celular entende como receptor é nada mais que um consumidor, em verdade tão passivo como sempre, em oposição às redes que acabam por permitir uma área de manobra do usuário incomparavelmente maior. O que estas sutilezas técnicas escondem, encobertas na neblina tecnológica, é que de um lado fala-se de usuário, de outro, consumidores. Ou seja, enquanto temos num cenário o indivíduo, no outro ele vira mala-direta, sumariamente.

Vale reproduzir este trecho de Mayra Gomes, em Atrator Estranho Nº 14 (1):

Parto do princípio de que aquilo que chamamos de TV interativa não tem nada de propriamente interativo. Se tomarmos a concepção normal do termo interativo, de troca e interferência, ela de fato não existe. Isto porque essa centralização se refere justamente a isto: uma equipe, vamos supor, lhe oferecendo possibilidades de escolha. Não importa que elas sejam vastas e múltiplas, você está delimitado, e não é isso que está por trás do conceito de interatividade. O discurso que convida à interatividade é revelador, é sintoma e se estrutura de uma forma tal a mostrar a nossa situação face à tecnologia e nossa situação em termos de um contexto social geral. Do ponto de vista de Arlindo Machado, existe mais interatividade em uma novela - pois ela é constantemente ancorada em checagens de Ibope e audiência - do que em um programa como o 'Você Decide', em que existe uma escolha que nem sequer é múltipla, é biunívoca e ponto final, você não tem interatividade alguma.

Todas estas inovações tecnológicas acima descritas, decerto dependem da produção de empresas que atém seus interesses em nada ou quase nada do universo público, daquilo que respeita ao interesse coletivo. Perfeitamente, dado que a técnica e a ciência, companheiras que explicam bastante uma da outra, são em boa medida financiadas pelo capital de empresas privadas, que visam o lucro e a multiplicação de seu capital. Mas isso não implica, como desavisadamente pode-se levar a crer, que o interesse investido no campo tecnológico é de exclusividade de empresas e corporações. O contrário já foi verdade. Mas em tempos em que setores que eram tidos como 'estratégicos' são deixados ao decidir do desenvolvimento estritamente privado, é comum encontrar a concepção de que o que vier está bom, e não estando, nada pode ser feito. É a já velha idéia de que a economia e seus fins é um assunto particular entre produtores e consumidores, ao que se pode contrapor, perguntando-lhes se o assassinato também é um affair particular entre assassino e assassinado.

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Revista Consultor Jurídico, 7 de agosto de 2002, 9h23

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