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Silêncio suspeito

Omissão de FHC na crítica ao golpe na Venezuela é comprometedora

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Venezuela, sexta-feira, 12 de abril. Depois de violentas manifestações populares, onde sindicatos patronais e de trabalhadores foram para as ruas protestar democraticamente contra o governo do presidente Hugo Chávez, alguns militares golpistas e o grande empresariado aproveitaram o pretexto e resolveram depor o presidente eleito. De maneira singular, proclamaram como novo mandatário da Venezuela, Pedro Carmona, presidente da maior organização empresarial venezuelana e maior inimigo do deposto, Chávez.

Até aí, em se tratando de América Latina, onde presidentes eleitos quase nunca chegavam ao final de seus mandatos, poderia ser uma coisa natural e sem maiores conseqüências. Fora o fato de que esse ato deixaria a já precária democracia latina americana na berlinda novamente.

O que mais chamou a atenção no episódio foi o silêncio que cercou o episódio. Mais uma vez, testemunhamos a omissão internacional quando se trata de defender os interesses populares.

A mesma omissão que ameaça todo governante que foge à cartilha do Hemisfério Sul. Um fator preponderante para que, quase ficasse como uma coisa "natural", um golpe de Estado que seria classificado como criminoso em qualquer país sério que tenha uma democracia plena.

Invocar dificuldades econômicas ou os atos políticos do populista presidente venezuelano não tem sustentação. As Constituições prevêem as hipóteses para destituir um presidente. Nenhuma delas admite o que ocorreu. Nenhuma delas admite golpes como solução.

Reparem que o FMI, imediatamente, reconheceu o governo golpista venezuelano. Com agilidade inédita, prometeu apoio e verbas para a "recuperação" do país. Perdeu a chance de condenar um ato ilegal e antidemocrático, como uma deposição militar.

O governo americano que não gosta das declarações de Chávez contra a política do Tio Sam, tampouco da aproximação de Chaves com Fidel e Sadam, teve uma ligeira amnésia em relação ao seu discurso em defesa da Democracia. Não comentou se houve golpe ou não. Os princípios democráticos que sempre "preocuparam" os americanos em golpes semelhantes, foram esquecidos. Já a queda do preço do petróleo, após a derrubada de Chaves, foi comemorada em Wall Strett. "Estranhamente" o governo americano silenciou quanto ao golpe.

A OEA disse que iria se reunir para avaliar os acontecimentos na Venezuela, reunindo o Grupo do Rio. Mas sem pressa. Aguardando os acontecimentos. As declarações contra o golpe de estado foram pífias e sem ecos.

O governo brasileiro que tem o "grande" democrata Fernando Henrique Cardoso, perdeu uma grande oportunidade de demonstrar que não aceita deposição de presidente eleito. FHC se omitiu literalmente. Foi procurado por Chávez por telefone, horas antes da deposição.

Chávez recorreu a FHC para que procurasse Bush e pedisse um tempo para que ele pudesse ao menos respirar. Ouviu do ex-perseguido político FHC, que não poderia fazer isso e que lamentava o que estava ocorrendo na Venezuela.

FHC deixou Chávez na mão. E, com isso, a própria democracia latina americana. Esqueceu rápido demais o que sentiu na pele nos anos da ditadura militar brasileira. Para quem pretende ser secretário-geral da ONU, a omissão foi terrível e imperdoável.

O candidato Lula do PT, amigo declarado de Chávez, lamentavelmente ficou com medo de defendê-lo. Talvez pensando que poderia cair nas pesquisas. Omitiu-se, lá na França, onde se encontrava. Deixou para o presidente do PT, José Dirceu a tarefa de falar algo, para salvar o partido, condenando e alertando sobre o golpe perpetrado.

Os outros candidatos nem quiseram falar do assunto, o protótipo de chefe de Estado, Serra disse que iria se inteirar melhor para poder falar algo a respeito, e por justiça, temos que dizer que somente o candidato Ciro Gomes teceu criticas acertadas e sérias condenando veementemente o golpe, sem entrar em detalhes sobre os motivos.

Os órgãos de imprensa no Brasil, quase todos, ao invés de condenarem imediatamente o golpe perpetrado contra um presidente eleito democraticamente pelo voto popular, condenaram Chávez por ele ter feito um monte de promessas e não tê-las cumprido. Fizeram um paralelo e ameaçaram os candidatos brasileiros para o risco que representa fazer promessas e não cumpri-las. Só isso.

"Chávez se considerava um Robin Hood bolivariano. Era mais um bufão, que entretinha o povão com programas de televisão em que se portava mais como animador de auditório do que como presidente. Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou o índice risco país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou (alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%". Revista Veja, página 45 - Edição Nº 1.747.

VENEZUELA - "A queda do presidente fanfarrão". Capa da Revista Veja - Edição 1.747

"Tomara que a queda de Chávez represente uma vacina contra salvadores da pátria na região". André Oppenheimer do Miami Herald.

"Como se não bastasse, Chávez hostilizava abertamente os americanos aproximando-se de Fidel Castro, fazendo acenos à guerrilha colombiana e visitando inimigos dos EUA como Saddam Hussein e Muammar Kadafi". Revista Isto É - Edição 1.698

"O país estava à venda, os empresários precisavam urgentemente de parceiros estrangeiros para se tornar competitivos. E o que aconteceu? Ninguém queria colocar seu dinheiro na terra de Chávez". Moisés Naím da revista americana Foreign Policy.

"Houve uma crescente repulsa pelo estilo autoritário e marxista do presidente. Tanto a sociedade quanto o exército achavam que Chávez foi longe demais e não o respeitavam". Carlos Romero, Cientista Político da Universidade Central da Venezuela.

Após apoiarem ostensivamente as manifestações que precipitaram a queda do presidente Hugo Chávez, as principais emissoras privadas de TV da Venezuela fizeram ontem um acordo para não exibir nem mencionar os protestos a favor do presidente deposto. Folha de S.Paulo de 14/04/2002

A mídia brasileira e a internacional, quase toda, se acovardou. Foi de uma irresponsabilidade quase que extrema. Ficou no quase, graças aos editoriais da Folha de S.Paulo, que classificou o golpe de estado de vergonhoso e ilegal. Não se tem conhecimento de mais nada que não fossem críticas ao presidente eleito deposto, e elogios aos golpistas que estavam "salvando" a Venezuela.

Esqueceram rápido demais que, com essa mesma justificativa, os golpistas brasileiros ficaram trinta anos nos reprimindo, numa ditadura que se pensava longe da América Latina. Os "salvadores" venezuelanos se preparavam para uma ditadura plena, já que a primeira coisa que o ilegal ditador venezuelano Pedro Carmona fez foi fechar o Congresso e destituir toda a Corte Suprema Venezuelana, algo muito parecido com o ocorrido no Brasil logo após o golpe militar de 1964.

FELIZMENTE, por uma dessas sortes dos miseráveis, Hugo Chávez conseguiu dar um contragolpe, em tempo recorde. E reassumiu a Presidência para a qual foi eleito pelo povo. Chávez tem a oportunidade de repensar seu governo com a lei ao seu lado e as instituições preservadas.

A frágil democracia da América Latina foi "salva pelo gongo", mas vamos festejar assim mesmo, já que alguns militares e empresários brasileiros já estavam achando uma "boa idéia" o que ocorreu na Venezuela.

Viu-se que os maiores partidos políticos hoje, na sua grande maioria, são meros grupos de interesses espúrios e criminosos. Fazem discursos de ocasião. O certo e o errado são apontados de acordo com a conveniência do mundo. Uma conduta que mantém o nefasto sistema político do interesse individual. Troca-se a verdade, que pode fortalecer o Brasil forte, econômica, política, e democraticamente, pela mentira eleitoral.

Que estejamos errados. Quem sabe essa omissão ocorrida no caso venezuelano tenha sido desinteressada e que tenha ocorrido por despreparo mesmo, e não por vontade de incentivar golpes em presidentes eleitos legalmente?

Mas é certo que não existe mais lugar para golpistas, nem na América Latina, nem em qualquer lugar do mundo, e muito menos no Brasil, onde um golpe ou qualquer outra coisa parecida será motivo para um banho de sangue sem precedentes. Não vamos NUNCA esquecer os trinta anos que perdemos de nossas liberdades democráticas que poderiam ter colocado o Brasil num patamar muito diferente e melhor de onde nos encontramos.

Estamos em um ano eleitoral, as denúncias de que o atual governo demonstra que tentará não "entregar" o governo de jeito nenhum é abominável. Qualquer que seja o candidato eleito, ele não pode sentir em momento algum que não irá tomar posse ou que vá sofrer qualquer tipo de "golpes salvadores". Não existe mais lugar para esse tipo de atitude nefasta e ilegal, e a Venezuela, através do trapalhão Chávez conseguiu ao menos deixar demonstrado que nem governos que erram aos montes podem sofrer golpes.

Podemos, finalmente, comemorar o ocorrido na Venezuela, onde a democracia foi mantida, mesmo com a omissão imperdoável e maléfica que ocorreu nesse fato.

Que sirva de lição o ocorrido na Venezuela, para os militares golpistas, empresários e políticos corruptos e antidemocráticos brasileiros, para que saibam que não é tão fácil e simples dar um golpe de estado nos dias de hoje, mesmo que no caso venezuelano tenha parecido que sim.

Francisco Carlos Garisto é ex-presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais

Revista Consultor Jurídico, 15 de abril de 2002, 0h50

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