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Danos múltiplos

Família Rubens Paiva vai ser indenizada com 30 anos de atraso

Sérgio de Souza - A da Barra é de quem?

Marcelo - Isso apareceu em 1986, não lembro de quem foi, e teve também motorista de caminhão que levou, etc. O Nilo Batista fez as escavações na praia, encontrou alguns ossos. Ele disse à minha mãe que o que identificaria o meu pai seria uma fratura no fêmur. E viu uma ossada com fratura no fêmur. Essa ossada foi para o IML, e permaneceu lá sob guarda da Polícia Federal, isso era 1986, um ano depois da redemocratização entre aspas, ainda havia muita pressão dos militares para que o caso não fosse resolvido. Então apareceu o laudo de uma delegada da Polícia Federal dizendo que aquela ossada era de um animal. O Nilo Batista, que era secretário de Segurança do Rio, governo Brizola, ligou para a minha mãe e falou: "Era a ossada e ela foi trocada". Então vou falar uma coisa que pode chocar muito as pessoas, mas, se você parar para pensar, ela faz sentido: minha família não tem o menor interesse em saber onde está essa ossada. Talvez até tivesse anos atrás, hoje em dia não tem o menor interesse. Já resolvemos isso na nossa cabeça. Não queremos fazer outro enterro. Estamos enterrando essa figura, esse meu pai, há anos, e foi dolorido a gente enterrá-lo. Tivemos o atestado de óbito só em 1996, depois da Lei dos Desaparecidos. As informações até hoje estão sendo montadas. É uma morte que não pára nunca de acontecer. Entendeu? Meu pai era o cara mais bem-humorado, bonachão, anárquico, amigo de todos. Ele não era um crânio, não me vejo diante de um legista me entregando um pedaço de osso e falando: "Este é seu pai". É evidente que existem legistas que sonham em encontrar essa ossada, existem jornalistas que sonham, desde o Pena Branca, muitos amigos meus jornalistas já tentaram. A própria sociedade brasileira, em muitos casos, também quer encontrar. Mas a família não faz a menor questão. Ironicamente, os militares tiveram até um certo bom gosto, enterraram na Barra, uma praia lindíssima, ou no Recreio dos Bandeirantes, ou no Alto da Boa Vista, que é uma floresta. Então ele está bem lá. Se é que existe alguma coisa, porque o próprio Nelson Massini afirma que dificilmente se vai encontrar alguma coisa consistente. Mas ele fala que talvez encontre um dente, e através do meu DNA, ou das minhas irmãs, ou dos meus sobrinhos, se identifique a ossada. Mas ele vai me dar um dente. Entendeu? Vou fazer um enterro? Vou fazer um memorial? Quer dizer, o meu pai não era o Luís Eduardo Magalhães, o meu pai não tem cara de memorial.

Tognolli - Acho que agora cabe uma outra inconfidência: você me falou que há pouco tempo grupos espíritas chegaram a telefonar pra tua mãe...

Marcelo - Pra mim.

Tognolli - Daria pra você contar?

Marcelo - Aí começa a loucura humana. Logo em seguida ao Fantástico, recebo um fax de um grupo espírita dizendo que meu pai estava presente em uma das sessões, e que meu pai disse, dois pontos, abre aspas. Aí eu li o que o meu pai disse, (risos) o meu pai jamais diria aquela bobajada. Meu pai era um cara muito informal. E aí, três parágrafos de uma fala de um suposto meu pai, e no final, fecha aspas: "Caso queira contatar-nos, telefone tal". (risos)

Marina Amaral - A versão do Amílcar Lobo, como ele falou no Burnier, você acredita no que ele diz até que ponto?

Marcelo - O Amílcar Lobo tinha "currículo" para falar o que falou. Era o médico responsável para "curar" torturados, trabalhar torturados. Todo mundo sabia daquilo, ele foi perseguido durante muito anos, viveu com aquele fantasma, e resolveu botar para fora, como uma forma de exorcizar. Fazia sentido. Ele é um médico do DOI-Codi. É diferente do motorista de caminhão que acha que transportou um "presunto". No Fantástico, o cara usou essa palavra: "O presunto é o Rubens Paiva".

Marina Amaral - Então você acredita na versão do esquartejamento?

Marcelo - Acredito.

Sérgio - Existe algum componente que a gente desconheça e foi conveniente a essas pessoas aparecer agora, no Fantástico? Ou foi só oportunismo, se é que teve dinheiro, ganhar uma grana em cima, qual é a credibilidade dessas pessoas, enfim?

Marcelo - Nenhuma. Não aparece o rosto, não aparece a voz.

Sérgio - Vocês foram procurados para participar da matéria?

Marcelo - Fui procurado pelo Pedro Bial, para conversar, levei o Bial no Spot (um bar em São Paulo) achando que era uma conversa literária, ele dirige filme também, achei que podia ser sobre cinema, e me comunicou.

Sérgio - Ele queria te entrevistar para fazer parte da matéria?

Marcelo - Ele queria autorização da família para começarem as escavações. Liguei imediatamente para a minha mãe, minha mãe falou não, falou que o Fantástico é um programa que não combinava com o meu pai. Comuniquei ao Bial e, como sou de imprensa, sei que ele não ia parar de fazer a matéria, e ele me falou que tinha informações bem seguras. Aí falei: "Não quero participar, a gente pede para que você, pelo amor de Deus, não faça nada sensacionalista e me comunique tudo o que você fizer". E ele me ligava mesmo a cada dois dias, me dizendo em que pé estava a matéria. Pela Lei dos Desaparecidos, eles podiam começar a escavação. Mas aí eles pediram autorização à Procuradoria Geral da República, já que é uma lei federal. A autorização foi dada, mas logo depois a Procuradoria embargou a escavação, que está parada, e ontem recebi um telefonema do procurador geral da República perguntando se a família quer que continuem com elas, pedindo desculpas em nome do governo federal, porque foi permitida uma escavação irresponsável daquele jeito. Disse que a partir de agora quem vai tomar conta disso é o governo federal, a procuradoria, com o apoio do governo estadual do Rio de Janeiro, que tem todo o interesse, que o terreno mudou muito, que eles estavam estudando - segundo palavras dele - geologia e geodésia, e que eles só estavam querendo saber quem iria pagar pelas escavações, o governo federal ou estadual.

Revista Consultor Jurídico, 7 de setembro de 2001, 11h29

Comentários de leitores

3 comentários

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”, a mentira podia ser debitada à conta da desinformação, já que ele era um adolescente que desconhecia totalmente a verdade sobre a vida de seu pai, hoje, passados mais de vinte anos, a insistência em repeti-la não pode ser desculpada pela ignorância, mas agravada pela má-fé. Não é crível que um escritor, jornalista, com acesso privilegiado a todas as fontes de pesquisa e informações, não tenha tido oportunidade, até hoje, de conhecer sequer uma pequena parte da verdade sobre a história da vida e da morte de seu próprio pai, chegando mesmo a desconhecer o importantíssimo papel que o mesmo desempenhou na luta contra a Ditadura ao dizer que o ódio dos militares contra ele devia-se à sua atividade como deputado antes de 64. Ora, que ele tenha ouvido essa estória da carochinha em sua infância, dentro de sua casa, por parentes que não queriam “manchar” o bom nome de uma família da alta burguesia paulista com o envolvimento de um dos seus com “terroristas”, tudo bem, é compreensível. Mas, continuar repetindo essas bobagens depois de todos esses anos, francamente, é vergonhoso. Ao mesmo tempo, o que me causou espanto ao ler a entrevista foi a absoluta falta de informações dos entrevistadores que aceitaram passivamente a versão de que Rubens Paiva foi preso só por causa da carta de agradecimento da Heleninha. Será possível que nenhum deles soubesse dos documentos enviados para Lamarca, que na época estava para ir para interior da Bahia ? Será possível que dentre tantos jornalistas nenhum tivesse conhecimento do “ponto” marcado entre o Carlos Alberto Muniz (que está vivo e pode confirmar) e o Rubens Paiva em sua própria casa, para receber os documentos que vieram do Chile ? Se, na época, tais in

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”, a mentira podia ser debitada à conta da desinformação, já que ele era um adolescente que desconhecia totalmente a verdade sobre a vida de seu pai, hoje, passados mais de vinte anos, a insistência em repeti-la não pode ser desculpada pela ignorância, mas agravada pela má-fé. Não é crível que um escritor, jornalista, com acesso privilegiado a todas as fontes de pesquisa e informações, não tenha tido oportunidade, até hoje, de conhecer sequer uma pequena parte da verdade sobre a história da vida e da morte de seu próprio pai, chegando mesmo a desconhecer o importantíssimo papel que o mesmo desempenhou na luta contra a Ditadura ao dizer que o ódio dos militares contra ele devia-se à sua atividade como deputado antes de 64. Ora, que ele tenha ouvido essa estória da carochinha em sua infância, dentro de sua casa, por parentes que não queriam “manchar” o bom nome de uma família da alta burguesia paulista com o envolvimento de um dos seus com “terroristas”, tudo bem, é compreensível. Mas, continuar repetindo essas bobagens depois de todos esses anos, francamente, é vergonhoso. Ao mesmo tempo, o que me causou espanto ao ler a entrevista foi a absoluta falta de informações dos entrevistadores que aceitaram passivamente a versão de que Rubens Paiva foi preso só por causa da carta de agradecimento da Heleninha. Será possível que nenhum deles soubesse dos documentos enviados para Lamarca, que na época estava para ir para interior da Bahia ? Será possível que dentre tantos jornalistas nenhum tivesse conhecimento do “ponto” marcado entre o Carlos Alberto Muniz (que está vivo e pode confirmar) e o Rubens Paiva em sua própria casa, para receber os documentos que vieram do Chile ? Se, na época, tais in

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000 À Car...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000 À Caros Amigos Sr. Editor, Escrevo a presente carta sem a menor pretensão, ou expectativa, de que a mesma venha a ser publicada. Isto porque sua extensão não é razoável para um comentário de leitor e, ao mesmo tempo, não autorizo a publicação parcial, uma vez que qualquer corte no texto deturparia o seu sentido e mesmo meu objetivo em escrevê-la. Assim, receba esta carta tão somente como um desabafo de alguém que se sentiu mal, muito mal, ao ler um número antigo de sua revista que, por acaso, lhe chegou às mãos. O motivo de ter me sentido agredido, ofendido, violentado mesmo, foi a leitura de uma entrevista publicada na edição de maio de 1999, sob o título “Chumbo Grosso”, onde nada menos que 9 (nove) jornalistas ouvem e reproduzem, sem qualquer crítica ou contestação, as besteiras e mentiras ditas por Marcelo Rubens Paiva, um pobre coitado que se promove com a história de vida – e de morte – de seu pai, sendo poupado de críticas por força da deficiência física causada por um acidente na juventude. Que esse cidadão viva às custas da memória de seu pai, tudo bem. Afinal, pode ser uma espécie de compensação pela brutal e prematura orfandade. Mas, que insista em difamar pessoas cuja história de vida não conhece, repetindo mentiras injuriosas só para se promover, isso não se pode admitir. Ao receber de um amigo um número antigo de “Caros Amigos”, justamente por conta da tal entrevista, li, com um sentimento entre a dor e o ódio, que o infeliz continua difamando minha mãe, Cecilia Viveiros de Castro, repetindo mentiras há muito tempo desmentidas por documentos publicados em livros, jornais e revistas nos últimos quase trinta anos, o que torna sua campanha difamatória ainda mais dolosa. S

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