Consultor Jurídico

Notícias

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Danos múltiplos

Família Rubens Paiva vai ser indenizada com 30 anos de atraso

Sérgio - Tem uma coisa que está me aguçando as idéias: afinal, que credibilidade têm hoje pessoas que dizem aos jornalistas: "eu estava na sessão de torturas, foi fulano que bateu"? Essas pessoas teriam a credibilidade de ser os que estavam lá, ou é mais uma mentira, mais um boato, mais uma inverdade?

Marcelo - Olha, descobri que esse caso Rubens Paiva, na verdade, pertence muito mais ao imaginário dos militares do que à família. Já é um caso resolvido para a família há muito tempo, mas para os militares é um caso entalado na garganta. Não só para os militares, mas para as pessoas que apoiaram o golpe, para o braço civil do regime e mesmo para os militares que não tiveram nenhum tipo de envolvimento com a tortura. Essa informação de "eu fui o motorista que dirigiu o caminhão que levou o corpo de seu marido até o local tal" minha mãe já escutou dez vezes. A de que "eu enterrei..." já ouvi de umas vinte pessoas; a de que "eu estive presente", de umas quarenta pessoas.

Sérgio de Souza - Desde quando vem isso?

Marcelo - Desde a década de 80. A primeira pessoa a falar foi o Amílcar Lobo, em 1986, aquele psiquiatra que deu entrevista à Veja.. Foi a primeira vez que se ouviu de lá de dentro o que realmente aconteceu. A partir dali começaram várias pessoas a querer ser testemunha de um fato importante. No começo, a gente tinha certo interesse em ouvir, mas já nos fizeram de palhaço em várias ocasiões, especialmente a imprensa.

Sérgio de Souza - Por exemplo?

Marcelo - A Veja, por exemplo, não custava nada nos ter avisado que tinha essa história do Amílcar Lobo. Até para checar as informações, né? Então, um dia eu estava com o Cazuza, no Baixo Leblon, num bar, enchendo a cara, fui até a esquina comprar a Veja, voltei, quando olho a capa é a foto do meu pai. De repente eu, com um amigo, lendo sobre a morte do meu pai, quer dizer, não custava nada eles terem dito antes que iam publicar, foi muito dolorido. Tudo bem, meu pai não é apenas meu pai ou o marido da minha mãe, é uma personalidade cuja trajetória é marcante para o país, entendo isso. O Cony até fala: "Teu pai é um dos maiores mártires desse período".. E agora eu entendo por que, porque foi exatamente o que aconteceu com a maioria silenciosa, quer dizer, ele não chegou a ser um combatente armado, mas por ter colaborado sofreu o que sofria quem estava combatendo com armas nas mãos.

Tognolli - Tenho uma inconfidência que acho que deve ser colocada nesse ponto: há uns dois meses você recebeu um fax do Antônio Carlos Magalhães em resposta ao que você falou quando estreou tua peça E Aí, Comeu?, no Rio de Janeiro. O que você falou que convocou os escrúpulos dele daquela maneira?

Marcelo - É aquele imaginário que citei, ele faz as pessoas, de uma certa maneira, sentirem muita culpa em relação a esse caso.

Rui Mendes - Seu pai tinha acesso a todo mundo, tanto da direita quanto da esquerda.

Marcelo - Ele não era da esquerda radical, tinha diálogo, era amigo do ACM, do Sarney, era um parlamentar, um político.

Tognolli - Mas e o ACM?

Marcelo - Os dois eram também colegas de Câmara e eu tinha informação de que o ACM levava os jornais para a embaixada da Iugoslávia, onde meu pai e mais uma série de pessoas estavam exilados. Quando o repórter do Jornal do Brasil me perguntou se eu tinha alguma mágoa, falei que não, porque essas pessoas cometeram erros, não imaginavam no que ia dar e, engraçado, não fico constrangido, essas pessoas é que ficam constrangidas quando me vêem. O Jarbas Passarinho ficou, quando eu o entrevistei para a Folha e no Roda Viva. O Maluf fica. O ACM ficou, uma vez em que fui numa cerimônia no Palácio do Planalto ele estava cabisbaixo, me cumprimentou emocionado e citei isso na entrevista ao JB. Aí ele me mandou um fax perguntando se eu, "tão jovem", estava ficando esclerosado, que ele não fica triste quando me vê, ao contrário, e narra os encontros que teve com meu pai, foi isso.

Sérgio - Você disse que a morte de seu pai está presente no imaginário muito mais dos militares do que da família. É por ser maior do que outros casos, o Herzog, enfim, que também foram de projeção?

Marcelo - O Herzog foi provado que forjaram o suicídio. Rubens Paiva ninguém sabe onde está o corpo. Até o Guevara já acharam. E o Rubens Paiva não vão achar. Tenho certeza disso.

Sérgio de Souza - Você não acredita na versão do Fantástico?

Marcelo - Ela é o que a gente já sabia há muito tempo, já havia a informação de que meu pai tinha sido enterrado na Quinta da Boa Vista. Já houve uma escavação lá.

Sérgio - E aquela no governo do Brizola?

Marcelo - Aquela foi na Barra da Tijuca. Mas já tivemos informação de que ele foi enterrado no Recreio dos Bandeirantes, na Barra da Tijuca, e teve a informação do Amílcar Lobo de que ele foi esquartejado.

Revista Consultor Jurídico, 7 de setembro de 2001, 11h29

Comentários de leitores

3 comentários

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”, a mentira podia ser debitada à conta da desinformação, já que ele era um adolescente que desconhecia totalmente a verdade sobre a vida de seu pai, hoje, passados mais de vinte anos, a insistência em repeti-la não pode ser desculpada pela ignorância, mas agravada pela má-fé. Não é crível que um escritor, jornalista, com acesso privilegiado a todas as fontes de pesquisa e informações, não tenha tido oportunidade, até hoje, de conhecer sequer uma pequena parte da verdade sobre a história da vida e da morte de seu próprio pai, chegando mesmo a desconhecer o importantíssimo papel que o mesmo desempenhou na luta contra a Ditadura ao dizer que o ódio dos militares contra ele devia-se à sua atividade como deputado antes de 64. Ora, que ele tenha ouvido essa estória da carochinha em sua infância, dentro de sua casa, por parentes que não queriam “manchar” o bom nome de uma família da alta burguesia paulista com o envolvimento de um dos seus com “terroristas”, tudo bem, é compreensível. Mas, continuar repetindo essas bobagens depois de todos esses anos, francamente, é vergonhoso. Ao mesmo tempo, o que me causou espanto ao ler a entrevista foi a absoluta falta de informações dos entrevistadores que aceitaram passivamente a versão de que Rubens Paiva foi preso só por causa da carta de agradecimento da Heleninha. Será possível que nenhum deles soubesse dos documentos enviados para Lamarca, que na época estava para ir para interior da Bahia ? Será possível que dentre tantos jornalistas nenhum tivesse conhecimento do “ponto” marcado entre o Carlos Alberto Muniz (que está vivo e pode confirmar) e o Rubens Paiva em sua própria casa, para receber os documentos que vieram do Chile ? Se, na época, tais in

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”, a mentira podia ser debitada à conta da desinformação, já que ele era um adolescente que desconhecia totalmente a verdade sobre a vida de seu pai, hoje, passados mais de vinte anos, a insistência em repeti-la não pode ser desculpada pela ignorância, mas agravada pela má-fé. Não é crível que um escritor, jornalista, com acesso privilegiado a todas as fontes de pesquisa e informações, não tenha tido oportunidade, até hoje, de conhecer sequer uma pequena parte da verdade sobre a história da vida e da morte de seu próprio pai, chegando mesmo a desconhecer o importantíssimo papel que o mesmo desempenhou na luta contra a Ditadura ao dizer que o ódio dos militares contra ele devia-se à sua atividade como deputado antes de 64. Ora, que ele tenha ouvido essa estória da carochinha em sua infância, dentro de sua casa, por parentes que não queriam “manchar” o bom nome de uma família da alta burguesia paulista com o envolvimento de um dos seus com “terroristas”, tudo bem, é compreensível. Mas, continuar repetindo essas bobagens depois de todos esses anos, francamente, é vergonhoso. Ao mesmo tempo, o que me causou espanto ao ler a entrevista foi a absoluta falta de informações dos entrevistadores que aceitaram passivamente a versão de que Rubens Paiva foi preso só por causa da carta de agradecimento da Heleninha. Será possível que nenhum deles soubesse dos documentos enviados para Lamarca, que na época estava para ir para interior da Bahia ? Será possível que dentre tantos jornalistas nenhum tivesse conhecimento do “ponto” marcado entre o Carlos Alberto Muniz (que está vivo e pode confirmar) e o Rubens Paiva em sua própria casa, para receber os documentos que vieram do Chile ? Se, na época, tais in

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000 À Car...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000 À Caros Amigos Sr. Editor, Escrevo a presente carta sem a menor pretensão, ou expectativa, de que a mesma venha a ser publicada. Isto porque sua extensão não é razoável para um comentário de leitor e, ao mesmo tempo, não autorizo a publicação parcial, uma vez que qualquer corte no texto deturparia o seu sentido e mesmo meu objetivo em escrevê-la. Assim, receba esta carta tão somente como um desabafo de alguém que se sentiu mal, muito mal, ao ler um número antigo de sua revista que, por acaso, lhe chegou às mãos. O motivo de ter me sentido agredido, ofendido, violentado mesmo, foi a leitura de uma entrevista publicada na edição de maio de 1999, sob o título “Chumbo Grosso”, onde nada menos que 9 (nove) jornalistas ouvem e reproduzem, sem qualquer crítica ou contestação, as besteiras e mentiras ditas por Marcelo Rubens Paiva, um pobre coitado que se promove com a história de vida – e de morte – de seu pai, sendo poupado de críticas por força da deficiência física causada por um acidente na juventude. Que esse cidadão viva às custas da memória de seu pai, tudo bem. Afinal, pode ser uma espécie de compensação pela brutal e prematura orfandade. Mas, que insista em difamar pessoas cuja história de vida não conhece, repetindo mentiras injuriosas só para se promover, isso não se pode admitir. Ao receber de um amigo um número antigo de “Caros Amigos”, justamente por conta da tal entrevista, li, com um sentimento entre a dor e o ódio, que o infeliz continua difamando minha mãe, Cecilia Viveiros de Castro, repetindo mentiras há muito tempo desmentidas por documentos publicados em livros, jornais e revistas nos últimos quase trinta anos, o que torna sua campanha difamatória ainda mais dolosa. S

Comentários encerrados em 15/09/2001.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.