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Danos múltiplos

Família Rubens Paiva vai ser indenizada com 30 anos de atraso

Marina Amaral - Quando a tua mãe foi presa, por que a tua irmã Eliana foi levada junto? O que aconteceu...?

Marcelo - Isso é uma coisa que só matei a charada quatro anos atrás. Porque a minha vida inteira esse caso era vivo, era relembrado. Por exemplo, quando eu estudava na Unicamp, chegava alguém e falava: "Teu pai era um herói", e eu "Nossa!", um cara da Convergência Socialista, com quem eu não tinha a menor intimidade, a menor identificação. Recebi carta de um outro falando: "Teu pai não entregou o ponto", entendeu? Ou "Graças a ele muitos de nós estão vivos", e eu não entendia exatamente como era esse envolvimento. A própria Heleninha Bocayuva me contou que ele a ajudou, alugou para ela um apartamento em São Paulo, um "aparelho", e que conseguiu traçar uma rota de fuga para ela ao Chile. O que estava acontecendo com meu pai é que, por ser um empresário bem-sucedido e ter ajudado essa menina quando o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro) decidiu se retirar em massa do país ao ver que a guerra estava perdida, no começo de 1971, provavelmente ele acionou seus esquemas para viabilizar as rotas de fuga, e provavelmente começou a ter encontros com algumas pessoas do MR-8, para, sei lá, sugerir, falar: "Olha, talvez vocês consigam ir pelo Paraguai". Porque pelo Uruguai a rota de fuga estava queimadíssima etc. E, quando foi preso, provavelmente logo perguntaram, como acontecia nesses interrogatórios, sobre os encontros, pontos e aparelhos, e como no DOI-Codi já rolava uma selvageria sem nome, levaram minha mãe e minha irmã para torturar as duas diante dele.

Marina Amaral - E isso não aconteceu?

Marcelo - Não, porque ele morreu antes.

Verena - Você disse que desde que seu pai voltou do exílio ele trabalhou normalmente, então essa prisão foi em função de denúncia de um dos grupos que ele poderia estar apoiando ou simplesmente uma vingança dos militares?

Marcelo - A prisão dele foi uma coisa bem técnica, foi a carta vinda do Chile para ele, de uma exilada.

Verena - Foi por causa disso, você acha?

Marcelo - Acho, não, tenho certeza. A pessoa que trouxe a carta também foi presa, presenciou a sessão de tortura do meu pai, apesar de nunca nos ter contado isso, só disse isso agora no Fantástico, há duas semanas, nunca contou para nossa família, ao contrário, até escreveu para minha mãe dizendo que não viu nada, que não sabia de nada.

Sérgio - Quem é essa pessoa?

Marcelo - Cecília Viveiros de Castro, a carta não veio com ela, veio com a nora, que viajava junto com ela, não sei o nome dessa outra.

Sérgio - Ela nunca disse isso à sua família, por que só foi falar agora?

Marcelo - Porque ela sabe que a gente nunca a perdoou, escrevi isso no Feliz Ano Velho, ela ficou com mágoas e resolveu falar agora, depois de 27 anos.

Sérgio - Desculpe, então, se eu entendi errado: ela era a pessoa que estava portando a carta?

Marcelo - Não sei se era ela ou a outra.

Sérgio - E foi identificada já no avião, e ao desembarcar foi presa. Em seguida vão apanhar seu pai.

Marcelo - Isso.

Sérgio de Souza - Ela teria telefonado para a casa de vocês, antes.

Marcelo - Não foi ela que telefonou.

Sérgio de Souza - Ela diz no depoimento ao Fantástico que a polícia a obrigou a telefonar para se certificar da presença de seu pai em casa.

Marcelo - Mentira, foi uma delegada que ligou. A carta estava com o codinome de meu pai, já que ele entrara para essa suposta linha de auxílio de uma organização de esquerda. Eu até já soube qual era o codinome, mas não lembro mais, e provavelmente perguntaram: "Quem é essa pessoa?" E a portadora da carta disse que era meu pai.

Sérgio - O que você chamou de mágoa da família é o fato de, passados tantos anos, ela nunca ter relatado claramente o que houve?

Marcelo - Não, sabíamos que meu pai tinha sido preso por causa da carta que ela trouxe. Sabíamos que ela estava ao lado do meu pai no interrogatório, mas ela nunca nos disse, e a grande tortura da minha família foi essa de não saber o que aconteceu, se ele realmente foi preso ou se estava vagando pelas ruas da Bolívia, a informação dela seria preciosíssima para dizer: "Não, ele apanhou muito...", - que foi o que ela disse no Fantástico, eu não vi o Fantástico, me contaram. Mas, se ela tivesse dito para nós: "Não, ele apanhou muito", já era suficiente para imaginarmos o que tinha acontecido. E ela era amiga da minha mãe, era professora das minhas irmãs.

Marcelo - Ela sempre negou, não atendia os telefonemas, depois escreveu uma carta para minha mãe em que ela dizia que eles realmente estiveram presos, mas que não lembrava, que desmaiou e não lembrava de nada. Então, para nós ela disse, em 1971, que desmaiou e no Fantástico revelou a verdade pela primeira vez.

Revista Consultor Jurídico, 7 de setembro de 2001, 11h29

Comentários de leitores

3 comentários

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”, a mentira podia ser debitada à conta da desinformação, já que ele era um adolescente que desconhecia totalmente a verdade sobre a vida de seu pai, hoje, passados mais de vinte anos, a insistência em repeti-la não pode ser desculpada pela ignorância, mas agravada pela má-fé. Não é crível que um escritor, jornalista, com acesso privilegiado a todas as fontes de pesquisa e informações, não tenha tido oportunidade, até hoje, de conhecer sequer uma pequena parte da verdade sobre a história da vida e da morte de seu próprio pai, chegando mesmo a desconhecer o importantíssimo papel que o mesmo desempenhou na luta contra a Ditadura ao dizer que o ódio dos militares contra ele devia-se à sua atividade como deputado antes de 64. Ora, que ele tenha ouvido essa estória da carochinha em sua infância, dentro de sua casa, por parentes que não queriam “manchar” o bom nome de uma família da alta burguesia paulista com o envolvimento de um dos seus com “terroristas”, tudo bem, é compreensível. Mas, continuar repetindo essas bobagens depois de todos esses anos, francamente, é vergonhoso. Ao mesmo tempo, o que me causou espanto ao ler a entrevista foi a absoluta falta de informações dos entrevistadores que aceitaram passivamente a versão de que Rubens Paiva foi preso só por causa da carta de agradecimento da Heleninha. Será possível que nenhum deles soubesse dos documentos enviados para Lamarca, que na época estava para ir para interior da Bahia ? Será possível que dentre tantos jornalistas nenhum tivesse conhecimento do “ponto” marcado entre o Carlos Alberto Muniz (que está vivo e pode confirmar) e o Rubens Paiva em sua própria casa, para receber os documentos que vieram do Chile ? Se, na época, tais in

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”, a mentira podia ser debitada à conta da desinformação, já que ele era um adolescente que desconhecia totalmente a verdade sobre a vida de seu pai, hoje, passados mais de vinte anos, a insistência em repeti-la não pode ser desculpada pela ignorância, mas agravada pela má-fé. Não é crível que um escritor, jornalista, com acesso privilegiado a todas as fontes de pesquisa e informações, não tenha tido oportunidade, até hoje, de conhecer sequer uma pequena parte da verdade sobre a história da vida e da morte de seu próprio pai, chegando mesmo a desconhecer o importantíssimo papel que o mesmo desempenhou na luta contra a Ditadura ao dizer que o ódio dos militares contra ele devia-se à sua atividade como deputado antes de 64. Ora, que ele tenha ouvido essa estória da carochinha em sua infância, dentro de sua casa, por parentes que não queriam “manchar” o bom nome de uma família da alta burguesia paulista com o envolvimento de um dos seus com “terroristas”, tudo bem, é compreensível. Mas, continuar repetindo essas bobagens depois de todos esses anos, francamente, é vergonhoso. Ao mesmo tempo, o que me causou espanto ao ler a entrevista foi a absoluta falta de informações dos entrevistadores que aceitaram passivamente a versão de que Rubens Paiva foi preso só por causa da carta de agradecimento da Heleninha. Será possível que nenhum deles soubesse dos documentos enviados para Lamarca, que na época estava para ir para interior da Bahia ? Será possível que dentre tantos jornalistas nenhum tivesse conhecimento do “ponto” marcado entre o Carlos Alberto Muniz (que está vivo e pode confirmar) e o Rubens Paiva em sua própria casa, para receber os documentos que vieram do Chile ? Se, na época, tais in

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000 À Car...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000 À Caros Amigos Sr. Editor, Escrevo a presente carta sem a menor pretensão, ou expectativa, de que a mesma venha a ser publicada. Isto porque sua extensão não é razoável para um comentário de leitor e, ao mesmo tempo, não autorizo a publicação parcial, uma vez que qualquer corte no texto deturparia o seu sentido e mesmo meu objetivo em escrevê-la. Assim, receba esta carta tão somente como um desabafo de alguém que se sentiu mal, muito mal, ao ler um número antigo de sua revista que, por acaso, lhe chegou às mãos. O motivo de ter me sentido agredido, ofendido, violentado mesmo, foi a leitura de uma entrevista publicada na edição de maio de 1999, sob o título “Chumbo Grosso”, onde nada menos que 9 (nove) jornalistas ouvem e reproduzem, sem qualquer crítica ou contestação, as besteiras e mentiras ditas por Marcelo Rubens Paiva, um pobre coitado que se promove com a história de vida – e de morte – de seu pai, sendo poupado de críticas por força da deficiência física causada por um acidente na juventude. Que esse cidadão viva às custas da memória de seu pai, tudo bem. Afinal, pode ser uma espécie de compensação pela brutal e prematura orfandade. Mas, que insista em difamar pessoas cuja história de vida não conhece, repetindo mentiras injuriosas só para se promover, isso não se pode admitir. Ao receber de um amigo um número antigo de “Caros Amigos”, justamente por conta da tal entrevista, li, com um sentimento entre a dor e o ódio, que o infeliz continua difamando minha mãe, Cecilia Viveiros de Castro, repetindo mentiras há muito tempo desmentidas por documentos publicados em livros, jornais e revistas nos últimos quase trinta anos, o que torna sua campanha difamatória ainda mais dolosa. S

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