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Danos múltiplos

Família Rubens Paiva vai ser indenizada com 30 anos de atraso

Marcelo - O Buzaid era amigo do meu avô, os dois eram de Santos, ambos do mercado alfandegário. Ele na época recebeu meu avô e disse: "Calma, doutor Jaime Paiva, o seu filho sofreu alguns arranhões, nós estamos cuidando dele, já-já ele será solto". Mas nada fazia sentido. Nem o fato de ele não ter sido solto nem o fato de 24 horas depois da prisão ter sido morto. Surgiu a versão pré-fabricada de que ele havia escapado de um cerco com seus "colegas terroristas" quando se fazia uma transferência de prisão, houve "troca de tiros" e ele "evadiu-se da viatura"...

Tognolli - A versão de que havia sido seqüestrado.

Marcelo - Exatamente. Minha mãe e minha irmã Eliana ainda estavam presas quando eles deram essa versão, que chegou pronta para os jornais, a ordem era publicar com fotos e tudo. Quando minha mãe saiu do DOI-Codi, treze dias depois, os amigos dela falaram: "Olha, saiu uma versão nos jornais de que o Rubens fugiu". Começou a procura e o kafkianismo. Minha mãe voltou ao DOI-Codi: "Bom dia, o senhor se lembra de mim? Estive presa aqui...". "Não, a senhora não esteve presa aqui..". Passou a ficar mais claro que a coisa havia sido mais violenta do que se pensava - isso é importante, naquela época não se sabia do caso de desaparecidos, sempre se negava a tortura, as pessoas das organizações de esquerda tinham consciência disso, mas a sociedade em geral não tinha. Desaparecimento, tortura eram coisas vagas. Minha mãe viu o pau-de-arara, viu sangue, foi interrogada na mesma sala em que as pessoas eram torturadas, ela não foi torturada mas ouviu gritos no DOI-Codi e viu o retrato do meu pai nas fichas de reconhecimento e imaginou que ele tivesse enfrentado aquela violência toda. Aí começa a tortura psicológica, de má-fé ou de loucura mesmo, por exemplo um piloto de avião que garantia ter transportado meu pai para Fernando de Noronha, uma pessoa que viu meu pai na Bolívia como mendigo, a empregada de uma amiga da minha mãe que viu meu pai num boteco da esquina tomando café, o major que ofereceu informações em troca de dinheiro para o meu avô dizendo que meu pai estava vivo e que ia fazer de tudo para soltá-lo. Mas, pela lógica, estava mais ou menos implícito que ele tinha sido morto, havia as informações em off de jornalistas, um deles entrevistou o comandante do 3º Exército, nem lembro qual era, que disse que meu pai foi morto, o corpo esquartejado, disse que viu minha mãe de capuz, entendeu? E nessa cola de informações tinha as duas coisas: a vontade de que ele estivesse vivo e a dura realidade de que estivesse morto. Porque nada fazia sentido, levávamos uma vida totalmente civil, morávamos em frente à praia no Rio de Janeiro, a casa era totalmente aberta. Quando os agentes do Serviço de Informações da Aeronáutica invadiram a casa, estava toda a família, a empregada, eu, minhas irmãs. Era feriado, 20 de janeiro, dia de São Sebastião, dia de sol, todo mundo se preparando para ir pra praia, os caras entraram com metralhadoras, depois viram que aquilo não era nenhum "aparelho", ficaram calmos, daí deram ordem de prisão ao meu pai: "O senhor está convocado para prestar depoimento". Ele até falou: "Mas, cadê a ordem escrita?" "Não tem ordem escrita." "Então, calma, vou trocar de roupa." Meu pai saiu de terno, gravata, caneta, relógio, charutos no bolso, e foi guiando o próprio carro, carro que depois recuperamos no DOI-Codi, com recibo do oficial de plantão, quer dizer, era a prova de que meu pai havia sido preso, porque antes eles negavam a prisão. Então, não havia lógica. E meu pai não tinha participação efetiva em nenhuma organização de esquerda, era contra a luta armada, era um burguês socialista, eleito deputado aos trinta anos de idade pelo PTB de São Paulo, mas era do PSB, partido que tinha cinco pessoas, dizia-se que a reunião do PSB cabia numa Kombi. Não tinha nenhuma relevância no combate à ditadura, era um empresário rico, que tinha um aviãozinho e que ajudou algumas pessoas, especialmente a filha de Bocayuva Cunha, um de seus melhores amigos, a Helena Bocayuva, que foi fiadora da casa onde ficou o embaixador americano seqüestrado, Charles Elbrick; ajudou essa menina a sair do Brasil, ela foi para o Chile, de lá escreveu uma carta de agradecimento. Alguns dizem que havia a presença do Cabo Anselmo na reunião no Chile em que ela falou da carta, o Cabo Anselmo ligou imediatamente para o delegado Fleury. Não sei se é verdade ou não, mas o Cabo Anselmo a essa altura já era agente duplo, conseguia ser ainda da direção da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), apesar dos alertas de vários militantes da própria VPR. O Onofre Pinto, que era o comandante-chefe da VPR, se recusava a acreditar que o Cabo Anselmo fosse agente duplo. Acontece que a carta foi interceptada ainda no avião. Quando esse avião pousou no Rio de Janeiro, ligaram para a nossa casa, e deu-se o que eu acabei de narrar.

Revista Consultor Jurídico, 7 de setembro de 2001, 11h29

Comentários de leitores

3 comentários

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”, a mentira podia ser debitada à conta da desinformação, já que ele era um adolescente que desconhecia totalmente a verdade sobre a vida de seu pai, hoje, passados mais de vinte anos, a insistência em repeti-la não pode ser desculpada pela ignorância, mas agravada pela má-fé. Não é crível que um escritor, jornalista, com acesso privilegiado a todas as fontes de pesquisa e informações, não tenha tido oportunidade, até hoje, de conhecer sequer uma pequena parte da verdade sobre a história da vida e da morte de seu próprio pai, chegando mesmo a desconhecer o importantíssimo papel que o mesmo desempenhou na luta contra a Ditadura ao dizer que o ódio dos militares contra ele devia-se à sua atividade como deputado antes de 64. Ora, que ele tenha ouvido essa estória da carochinha em sua infância, dentro de sua casa, por parentes que não queriam “manchar” o bom nome de uma família da alta burguesia paulista com o envolvimento de um dos seus com “terroristas”, tudo bem, é compreensível. Mas, continuar repetindo essas bobagens depois de todos esses anos, francamente, é vergonhoso. Ao mesmo tempo, o que me causou espanto ao ler a entrevista foi a absoluta falta de informações dos entrevistadores que aceitaram passivamente a versão de que Rubens Paiva foi preso só por causa da carta de agradecimento da Heleninha. Será possível que nenhum deles soubesse dos documentos enviados para Lamarca, que na época estava para ir para interior da Bahia ? Será possível que dentre tantos jornalistas nenhum tivesse conhecimento do “ponto” marcado entre o Carlos Alberto Muniz (que está vivo e pode confirmar) e o Rubens Paiva em sua própria casa, para receber os documentos que vieram do Chile ? Se, na época, tais in

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Se no início, quando escreveu “Feliz Ano Velho”, a mentira podia ser debitada à conta da desinformação, já que ele era um adolescente que desconhecia totalmente a verdade sobre a vida de seu pai, hoje, passados mais de vinte anos, a insistência em repeti-la não pode ser desculpada pela ignorância, mas agravada pela má-fé. Não é crível que um escritor, jornalista, com acesso privilegiado a todas as fontes de pesquisa e informações, não tenha tido oportunidade, até hoje, de conhecer sequer uma pequena parte da verdade sobre a história da vida e da morte de seu próprio pai, chegando mesmo a desconhecer o importantíssimo papel que o mesmo desempenhou na luta contra a Ditadura ao dizer que o ódio dos militares contra ele devia-se à sua atividade como deputado antes de 64. Ora, que ele tenha ouvido essa estória da carochinha em sua infância, dentro de sua casa, por parentes que não queriam “manchar” o bom nome de uma família da alta burguesia paulista com o envolvimento de um dos seus com “terroristas”, tudo bem, é compreensível. Mas, continuar repetindo essas bobagens depois de todos esses anos, francamente, é vergonhoso. Ao mesmo tempo, o que me causou espanto ao ler a entrevista foi a absoluta falta de informações dos entrevistadores que aceitaram passivamente a versão de que Rubens Paiva foi preso só por causa da carta de agradecimento da Heleninha. Será possível que nenhum deles soubesse dos documentos enviados para Lamarca, que na época estava para ir para interior da Bahia ? Será possível que dentre tantos jornalistas nenhum tivesse conhecimento do “ponto” marcado entre o Carlos Alberto Muniz (que está vivo e pode confirmar) e o Rubens Paiva em sua própria casa, para receber os documentos que vieram do Chile ? Se, na época, tais in

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000 À Car...

Luiz (Advogado Sócio de Escritório)

Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000 À Caros Amigos Sr. Editor, Escrevo a presente carta sem a menor pretensão, ou expectativa, de que a mesma venha a ser publicada. Isto porque sua extensão não é razoável para um comentário de leitor e, ao mesmo tempo, não autorizo a publicação parcial, uma vez que qualquer corte no texto deturparia o seu sentido e mesmo meu objetivo em escrevê-la. Assim, receba esta carta tão somente como um desabafo de alguém que se sentiu mal, muito mal, ao ler um número antigo de sua revista que, por acaso, lhe chegou às mãos. O motivo de ter me sentido agredido, ofendido, violentado mesmo, foi a leitura de uma entrevista publicada na edição de maio de 1999, sob o título “Chumbo Grosso”, onde nada menos que 9 (nove) jornalistas ouvem e reproduzem, sem qualquer crítica ou contestação, as besteiras e mentiras ditas por Marcelo Rubens Paiva, um pobre coitado que se promove com a história de vida – e de morte – de seu pai, sendo poupado de críticas por força da deficiência física causada por um acidente na juventude. Que esse cidadão viva às custas da memória de seu pai, tudo bem. Afinal, pode ser uma espécie de compensação pela brutal e prematura orfandade. Mas, que insista em difamar pessoas cuja história de vida não conhece, repetindo mentiras injuriosas só para se promover, isso não se pode admitir. Ao receber de um amigo um número antigo de “Caros Amigos”, justamente por conta da tal entrevista, li, com um sentimento entre a dor e o ódio, que o infeliz continua difamando minha mãe, Cecilia Viveiros de Castro, repetindo mentiras há muito tempo desmentidas por documentos publicados em livros, jornais e revistas nos últimos quase trinta anos, o que torna sua campanha difamatória ainda mais dolosa. S

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