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Filme de terror

Ex-agente da CIA diz que EUA iriam explodir bombas no Brasil

Travestido de empresário, um engenheiro químico norte-americano foi enviado a São Paulo, no início da década de 70, com missões como espionar brasileiros e, eventualmente, assassinar pessoas e explodir bombas em alvos como a Catedral da Sé e no consulado americano para justificar a repressão à esquerda que resistia à ditadura militar no país.

A revelação foi feita neste domingo pelos repórteres Amaury Ribeiro Jr. e Raphael Gomide, no Jornal do Brasil. As informações decorrem de depoimento secreto do ex-agente da CIA, Robert Muller Hayes, ao Senado americano.

O depoimento do ex-espião, que no Brasil usava o nome de "Reis", não é recente. É de 1987, mas só agora tornou-se conhecido e foi confirmado pelo próprio Hayes aos jornalistas. Sendo verdadeiro, é desconcertante para um governo que, a partir de 11 de setembro, elegeu o terrorismo como o grande mal do planeta.

Na entrevista, o americano afirma que passou a rejeitar as tarefas depois que se falou em explodir o consulado americano. "Nesse ponto, eles passaram dos limites. Eu seguia uma regra simples: matava apenas pessoas más. Nada de inocentes, mulheres e crianças. É preciso ter certos princípios," afirmou ele.

Seu trabalho de rotina era vasculhar a vida de políticos, sindicalistas e até mesmo militares brasileiros. Sua missão ultrasecreta: eliminar militantes cubanos e latinos em geral que tentavam se infiltrar no Brasil.

Em 1987, o ex-agente foi intimado a depor em uma comissão do Senado que investigava a participação de colaboradores da CIA com o contrabando de armas. Mesmo depois de ser avisado de que poderia ser preso por perjúrio (falso testemunho), Hayes surpreendeu. Revelou um plano, elaborado em 1976 por colaboradores da CIA, para realizar um atentado que seria atribuído às organizações de esquerda. Três opções de alvo foram selecionadas: um Teatro no Jardim Paulista, a Catedral de São Paulo e o consulado americano na capital paulista.

Segundo Hayes, a intenção do plano era a mesma que, mais tarde, na década de 80, motivou militares do DOI-Codi - órgão de repressão de militantes de esquerda no país durante o regime militar - a explodir bombas no início da década de 80 no país: responsabilizar os militantes da luta armada.

"Por ter me recusado a participar do plano, passei a ser perseguido e ameaçado de morte", afirmou Hayes, de seu escritório na Flórida, ao JB.

Durante cinco horas de entrevista gravada nas duas últimas semanas, Hayes revelou ao jornal sua trajetória em serviços secretos americanos e suas passagens pelo Brasil e outros países da América Latina. No Brasil, as atividades foram de espionagem, seqüestros e assassinatos, como afirmou, em depoimento à comissão do Senado dos EUA, em 1987. Sob os codinomes de Roberto Reis, Roberto Reyes e Salim Al Assal, disse ter trabalhado como agente free-lancer da CIA, do Mossad (israelense) e do Serviço Secreto da Alemanha Oriental.

Entre os alvos de espionagem no país, estavam personalidades da política brasileira, como os economistas Roberto Campos e Henrique Simonsen, sindicatos e altos oficiais das Forças Armadas brasileiras. "A CIA queria saber detalhes da vida pessoal deles, queria ouvir fofocas, se tinham amantes, com quem dormiam, o que faziam", afirmou Hayes, que contou ter obtido informações e fotos comprometedoras de algumas figuras públicas.

Hayes, que tinha a empresa de engenharia Hayes-Bosworth disse que sua atividade permitia que ele conhecesse muitas pessoas e tivesse acesso a muitas informações. Sua empresa assumiu contas milionárias como o projeto de uma fábrica da Ford, em São José dos Campos, que nunca saiu do papel.

De acordo com Hayes, sua experiência militar em setores de inteligência o levou a trabalhar para a CIA. No seu currículo de serviços prestados aos serviços secretos dos EUA, destaca suas passagens pela Agência de Segurança do Exército (ASA), pela Agência Nacional de Segurança (NSA) e pelo Boinas Verdes, divisão de elite do exército dos Estados Unidos. Lá, aprendeu a falar mandarim - dialeto oficial da China - e árabe, o que o levou a trabalhar por um ano como tradutor.

Depois de passar para a reserva, decidiu estudar engenharia em Nova Iorque. Definindo-se como um patriota, Hayes fala, com certo orgulho, que se tornou, nessa época, uma espécie de "dedo-duro" no meio estudantil. Foi cooptado pelo FBI (polícia federal americana) para investigar estudantes e professores. Logo depois, a CIA lhe pediu o mesmo. "Mas não queriam que o FBI soubesse que estava fazendo isso. Eles (CIA) me disseram: Você é um de nós. Eu era um estudante pobre que não gostava de comunistas, então não vi muito problema em fazer isso. Se um professor me desse uma nota ruim, eu dizia que era comunista", revelou ao JB.

No fim dos anos 60, quando já trabalhava como engenheiro químico, voltou a ser procurado para fazer "operações" pela Europa. Questionado sobre que tipo de operações, ele despista. "Era engenheiro."

Revista Consultor Jurídico, 7 de outubro de 2001, 9h48

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