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Obra aberta

Banco de dados na Internet anulam o mito da privacidade

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A recente onda de "evasão de privacidade" em programas como o "Na Real" da MTV e "Casa dos Artistas" no SBT, matéria de capa do semanário Istoé - "Intimidade exposta - atrações televisivas como a Casa dos Artistas, autobiografias pouco recatadas, a Internet como palco individual e câmeras em locais estratégicos derrubam o mito da privacidade" - se mostra extremamente oportuna para um estudo, principalmente diante das recentes medidas espiãs como o Magic Lantern do FBI, que já está sendo planejado para devassar a vida dos cidadãos na Internet.

A experiência de se obter uma quantia razoável de informações sobre estranhos online não é novidade - a página pessoal é uma das tradições mais antigas no ciberespaço. Mas é um prato cheio para coleções de dados estouvados e ao mesmo tempo fascinantes, tornando possível a obtenção de uma gama variada de informações acerca da vida privada de diversas pessoas.

De modo estimulante, derivado do hipercomercialismo da Internet, esses bancos de dados não irão propiciar a descoberta de fatos tais como quem comprou um computador de último tipo nos últimos 5 minutos, ou quais websites são mais populares entre mulheres na faixa etária de 14-24 anos. Em vez disso, seremos brindados com estatísticas pelas quais apenas um Freud da era dos computadores poderia se interessar, como por exemplo, com o que passaram a sonhar as pessoas após 11/09.

Esses bancos de dados são interessantes para o internauta que deseja penetrar nos recônditos da vida alheia, mas também representam tesouros para pessoas que buscam a expansão do poder de análise dos dados e de obtenção de textos (o mining).

Utilizando ferramentas especializadas na busca de padrões textuais, os pesquisadores do futuro estarão aptos a utilizar esses bancos de dados pessoais como uma forma de mapear todos os movimentos e alterações, desde desejos humanos até padrões de migração em épocas de recessão econômica.

Um lugar ideal para buscas sobre sentimentos humanos na Internet é o banco de dados do Random Access Memory ou Memória de Acesso Randômico, um repositório de mais de 13.000 pensamentos exteriorizados por usuários anônimos em um período de cerca de dois anos. Os visitantes podem buscar as recordações por assunto, data ou apelido do confidente público.

Então, por exemplo, o arquivo de 1983 do banco de dados mantém informações sobre o videogame Atari, e o assunto "virgindade" apresenta dúzias de menções desde os anos 70 até o presente; algumas estúpidas, outras eloqüentes, e outras ainda muito dolorosas do ponto de vista humano. "Perdi minha virgindade com uma vagabunda de 17 anos" alguém orgulhosamente revela. Outra confissão pública, bastante breve, diz que "não foi bem um estupro, mas definitivamente não foi consensual... Eu tinha 15 anos."

Aprofundar-se no conteúdo desses arquivos é como mergulhar no inconsciente digital coletivo, um mundo de desejos e impressões irracionais.

O designer por detrás do Random Access Memory é Eric Liftin, gerente da Mesh Architectures, uma empresa nova-iorquina especializada em construções de tijolos e cimento, bem como no design de websites. Ele conta que sua fascinação por espaços construídos inspirou-o a criar esse banco de dados bastante incomum.

"Eu estou interessado na maneira como as pessoas povoam um website como se fosse um espaço físico, real, então eu criei um banco de dados vazio e disponibilizei-o para as pessoas viverem ali", disse Liftin. "Quando você disponibiliza um banco de dados tão aberto, como as pessoas irão reagir ao preenchê-lo?" Liftin quis que o banco de dados fosse simples e convidativo, mas também que servisse para o exercício das experiências de associação livre da memória em si.

Realizar uma busca no banco de dados é equivalente a examinar os pensamentos de outra pessoa - ainda assim esses pensamentos estarão intimamente ligados a uma consciência coletiva.

Quando o banco de dados foi desenvolvido, Liftin encorajou outras pessoas a criar projetos semelhantes. Um banco de dados RAM voltado aos ataques de 11/09, por exemplo, foi erigido em http://www.randomaccessmemorial.org. Uma memória exteriorizada nessa coletânea, como tantas outras, exaure-se em sua própria fragilidade. "Foram tantas vidas", alguém disse, simplesmente.

Uma coleção de dados íntimos muito maior e muito mais desorganizada pode ser consultada no repositório de textos "alt.sex.stories". O grupo de discussões da extinta USENET resultou do trabalho de uma organização sem fins lucrativos, que é responsável pela hospedagem de uma enorme coletânea de histórias eróticas disponibilizadas por aspirantes a escritores, fãs e amadores cheios de excitação. Muito embora o banco de dados em si estivesse no ar desde 1996, muitas das histórias remetem ao reinado das BBS (Bulletin Board Systems) nos anos 70 e 80 e mais recentemente a páginas pessoais de caráter referencial.

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 é advogado, diretor de Internet do Instituto Brasileiro de Política e Direito da Informática (IBDI), membro suplente do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e responsável pelo site Internet Legal (http://www.internetlegal.com.br).

Revista Consultor Jurídico, 29 de novembro de 2001, 19h27

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