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Despedida de cacique

Conheça o discurso de renúncia de ACM

É com desprezo que olho para alguns, com comiseração e até com respeito para outros.

Senhor presidente; Fiz muitas acusações a Vossa Excelência, que merecem ser esclarecidas. Cabe-lhe respondê-las, para que não pairem dúvidas sobre a sua atuação. Da mesma forma, com relação à minha pessoa, Vossa Excelência, ou qualquer outro, também terá o direito de comprovar, se for possível, qualquer acusação que me tenha feito. Não vou permitir que se jogue fora um sólido patrimônio de várias décadas de vida pública, mas que não vão terminar aqui.

Reúne o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar figuras que deveriam ser conspícuas, justas e imparciais para fazer o julgamento de seus colegas. Alguns o são. Outros, porém, nem tanto.

A esses do nem tanto se juntam outros que nem sequer pertencem ao Conselho, mas se aproveitam dos holofotes e dos flashes para o grande espetáculo circense que se prestaram a promover, numa situação bisonha, pois, sem talento para a interpretação humorística, acabaram caindo no ridículo.

Pior, ainda, senhores senadores, não há nada mais triste do que o que assistimos nos últimos dias.

A Câmara Alta do Poder Legislativo exposta ao escárnio público pelos que a apequenam e a menosprezam, preocupados apenas com a promoção pessoal, num esforço ingente de se tornarem vistos, pagando, para tanto, o preço da ridicularização de seus gestos e impostações teatrais, ações e reações incompatíveis com a seriedade do cargo de senador e, mais ainda, com a responsabilidade de julgadores de que, naquele momento, estavam investidos.

Lembro Voltaire:

Uma única oração dirigi a Deus e muito curta. "Oh, senhor, faze com que os meus inimigos se tornem ridículos". E Deus me atendeu.

"O Brasil não é isso. É isto. O Brasil, senhores, sois vós. O Brasil é esta assembléia. O Brasil é este comício imenso, de almas livres. Não são os comensais do erário. Não são as ratazanas do Tesouro. Não são os mercadores do Parlamento. Não são as sanguessugas da riqueza pública. Não são os falsificadores de eleições. Não são os compradores de jornais. Não são os corruptores do sistema republicano...".

Não sou quem o diz. É Rui Barbosa, tantas vezes impropriamente citado nesta Casa por pessoas sem as mínimas condições morais ou intelectuais para citá-lo, com ou sem óculos.

Como Rui está atual!

Não! Não serão esses falsos moralistas que traçarão, daqui para a frente, o meu destino. Não serão os movidos pelo ódio, pelo despeito e pelas frustrações de pigmeus, de aprendizes deslustrados, de rábulas travestidos de bacharéis, especializados no direito do linchamento, que se projetarão à minha sombra. Rábula é rábula. Bacharel é bacharel.

Este será, sim, um momento histórico, mas não escrito com o sangue que pensaram arrancar de mim. Estará marcado, mais uma vez, pela soberania do povo baiano que, em breve, dará a resposta a esses poucos que tentaram cassar-lhe a vontade manifestada soberanamente nas urnas.

Repito: não traçarão o meu destino. Neste momento histórico, faço questão de olhar de frente, nos olhos de cada um dos senhores, sobretudo dos que compõem o Conselho de Ética, para lhes perguntar a qual dos senhores interessa silenciar a minha voz, a minha incômoda voz, mas coerente e sempre sintonizada com os interesses do Brasil.

Deve haver motivos particulares, e até particularíssimos, muitos dos quais moralmente inconfessáveis, para justificar o tratamento de condenado por antecipação que recebo desde o início deste rumoroso caso.

Fui submetido, repito, a um tratamento injusto, mas sobretudo covarde, que rejeito como senador, mas rejeito, acima de tudo, como cidadão de largos serviços prestados ao meu país e, por isso mesmo, merecedor do respeito dos meus concidadãos.

Um tratamento muito mais digno e respeitável do que merecem alguns dos meus algozes, que nunca tiveram, não têm e certamente jamais terão os atributos morais que, perdoem-me a imodéstia, fizeram da sigla ACM, mais que uma sigla, uma legenda viva que ninguém vai destruir assim, sem mais nem menos. Lembro-lhes que não me fiz sigla e legenda ao acaso. Jamais montei esquemas duvidosos ou deles participei para eleger-me a qualquer cargo público.

Revista Consultor Jurídico, 31 de maio de 2001, 0h00

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