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Despedida de cacique

Conheça o discurso de renúncia de ACM

Os investimentos sociais, ao contrário do que aparentam, não cresceram absolutamente nada.

Os salários cada vez menores, a vida do pobre cada vez pior, chegando a apontar, para futuro próximo, a desordem, que só pode ser evitada se medidas urgentes vierem.

Aconselho também ao senhor presidente, que exija de seus economistas que eles não se preocupem apenas com os números, mas que pensem na vida dos mais pobres, que não têm sequer condições de ver números.

Precisamos de pessoas com alma.

Uma nação não é uma referência estatística, mas a uniformidade de sentimentos que o cidadão deixa de ter quando lhe faltam as coisas mínimas com que se constrói o conforto coletivo.

É preciso que o senhor presidente compreenda também, que não se resolvem problemas do povo com o uso de verbas públicas em votações de projetos, mesmo que eles sejam importantes para o governo.

Além de deseducar, cria-se o hábito de só se obter vitórias com a barganha, nunca transparente. Como toda a barganha, aliás. Esses métodos, além de ultrapassados, estão maculando sua vida honrada.

Um eminente membro do governo federal recentemente afirmou que eu criei alguns problemas para o Executivo, mas que a minha atuação foi mais positiva do que negativa.

Realmente, sem falsa modéstia, foi muito positiva para o governo, que não contou, porém, com um presidente do Senado subserviente para atender-lhe naquilo que não merecia ser atendido e diminuir a força do poder, como muitas vezes é desejo, infelizmente, daqueles que estão no Palácio do Planalto. É porque eu também não precisava barganhar para ocultar crimes que jamais cometi.

Com respeito, mas altivez, jamais deixei de fazer alertas ao senhor presidente.

Não foi por falta de alerta que despencamos em direção ao abismo.

Alertei o governo, em tempo hábil, para o precipício que de nós se avizinhava. Nada foi feito e hoje quem paga a culpa é o povo.

Deixando de ser senador, abro caminho para que os senhores examinem como quiserem a minha vida. Posso lhes assegurar, antecipadamente, contudo, que não cometi qualquer crime contra o erário, não fiz advocacia administrativa, não procurei enriquecer a quem quer que fosse. Não furtei. Ao contrário, apontei ladrões que ainda estão impunes.

Desafio ministros de Estado de todas as pastas; presidentes de todos os bancos para apontar um favor qualquer que eu tivesse pedido para particulares.

A vida pública assim o exige e, quem sabe, o tal Conselho de Ética desta Casa não se veja obrigado a fazer aquilo que não fez, por covardia, encaminhando ao Ministério Público, que, como de costume, arquivou.

Paradoxalmente, agradeço ao Conselho de Ética por assumir a atitude que assumiu no meu julgamento, deixando claro que não estava atrás da justiça ou da verdade, mas de uma condenação politicamente conveniente, para deixar intacta a crise ética que rói neste momento as mais importantes instituições brasileiras.

Se houve a menor dúvida sobre a natureza e as intenções do processo a que me submeteram; se os senadores que pediram minha condenação tivessem resguardado pelo menos a aparência de isenção, meu nome talvez estivesse agora manchado por seus votos e seus relatórios. Mas saio desse processo como entrei, convencido de que eticamente eu tinha razão.

Agradeço também ao Conselho de Ética que, ao precipitar indevidamente a minha sentença condenatória, poupou ao país, ao Congresso e a mim a exposição por mais tempo ao espetáculo deseducativo de uma simulação de julgamento de um tribunal, que em vez de perseguir a Justiça, persegue os adversários incômodos. Eu incomodei, sobretudo aos inimigos do erário. Não me acomodei, como é hábito nesta Casa.

Agradeço ao governo Fernando Henrique Cardoso, de quem fui aliado e agora sou vítima, porque, ao me deixar sozinho na luta contra a corrupção, alforriou-me do penoso compromisso de acompanhar até o fim o seu longo declínio.

Eu não teria coragem de fazer a ninguém o que se fez comigo.

Mas, graças a todos eles, embora sem mandato, sinto-me mais livre do que nunca para trabalhar exclusivamente pelo que me interessa - o Brasil e a Bahia. Senhoras e senhores, Respeitáveis juizes do Conselho de Ética,

Revista Consultor Jurídico, 31 de maio de 2001, 0h00

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