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Continuação do voto

Imediatamente 'Id nigrum complet agmen (Prov.), saíram a toda pressa milhares daqueles animalejos, que formando longas e grossas fileiras, demandaram em direitura o assinalado campo, deixando as antigas moradas; e livres de sua modestíssima opressão aqueles santos religiosos, que renderam a Deus as graças por tão admirável manifestação de seu poder e providência".) ? (...) João Lisboa, que viu o processo no Arquivo do Convento, conta que faltavam as primeiras folhas "em que deviam vir a proposição da ação e a contrariedade das rés formigas". (Informa que "a parte que se conservou começa pelo autuamento de uns embargos de contraditas com que as mesmas rés, por seu curador ad litem, vieram contra as testemunhas que haviam jurado por parte dos reverendos autores. Este autuamento tem a data de 17 de janeiro de 1713, entretanto que "A Nova Floresta", de Bernardes, que já dá conta da sentença final, foi impressa em Lisboa (Portugal) em 1706. É de crer que o processo, começado alguns anos antes, estivesse paralisado até então. (...) Os artigos de contraditas consistem na alegação de serem as testemunhas dos autores Irmãos terceiros da ordem de São Francisco, e por isso suspeitas de parcialidade. Por despacho de 24 de janeiro, o Juiz que era o reverendo padre Vigário Geral, o licenciado José Teixeira de Morais, deprecou os embargos, houve as inquirições por abertas e públicas e mandou dar vistas às partes para dizerem afinal. Segue-se a inquirição das rés (as formigas), que se havia realizado em diversos dias do mês anterior.

Juraram por parte delas cinco testemunhas. Pelo depoimento do Capitão Urbano Rodrigues, de idade que disse ser de noventa e quatro anos, pouco mais ou menos, far-se-á idéia dos demais. Ei-lo: - "E perguntado ele testemunha pelo conteúdo na contrariedade das rés, disse ao primeiro artigo que sabe serem as rés umas criaturas, que não pode haver nelas malícia, por não terem uso da razão, e assim que não podem saber de bem nem de mal, e mais não disse deste nem do segundo. E do terceiro artigo disse ele testemunha que sabia serem as rés-formigas naturais da terra, e que nela sempre viveram espalhando-se por todos os lugares desta cidade e matos, e que no tempo em que os reverendos autores tem o seu convento ou cerca perto dele, conforme sua lembrança, e mais não disse deste, nem dos seguintes, etc".

Passaram-se depois mais seis meses sem falar-se no feito, e requerendo os autores a reinstauração da instância perempta, o Vigário forâneo (sim, representava Deus e, como muitos hoje, era também Juiz), o licenciado Manuel Homem deferiu-lhes como pediam. Em virtude do seu despacho procedeu-se à diligência, que consta da seguinte certidão: "Eu escrivão do Eclesiástico, abaixo assinado, e sendo lá sua cerca citei as formigas em sua própria pessoa, por todo o conteúdo da petição e as formigas em sua própria pessoa, por todo conteúdo na petição e despacho acima, lendo-lhes tudo de verbo ad verbum, havendo-lhes nesta forma a citação por feita, em fé que passei a presente em S. Luís 19 de junho de 1714, Joseph Guntardo Beckmannz".

Segue-se o termo de juramento aos Santos Evangelhos deferido a um novo curador ad litem dado às rés, e o termo de vista dada aos autores em 20 de junho. E aqui parou o processo sem mais ter andamento até hoje.

Posto que seja passado um lapso de quase cento e cinquenta anos (mais de trezentos, hoje), se, alegando os autores de um lado pertencerem a uma ordem mendicante, e as rés de outro serem pessoas desvairadas e miseráveis, invocassem o benefício da restituição, o processo poderia continuar. O caso é que achassem juiz que hoje, (em 1855), se quisesse prestar a essa sacrílega farsa." II Sermão do Bom Ladrão22 Padre Antônio Vieira. Seleção e introdução de Frederico Barbosa. Landy Livraria Editora e

Distribuidora Ltda. SP ? SP. 2000. No Sermão do Bom Ladrão, o Padre Antonio Vieira não só defende que todo ladrão deve restituir ao Estado ou ao particular o que furtou. Denuncia também a hipocrisia de reis e de príncipes no lidar com a corrupção no poder público.

("Todos devem imitar o Rei dos Reis; e todos tem muito o que aprender nesta última ação da sua vida. Pediu o bom ladrão a Cristo, que se lembrasse dele no seu Reino. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos mais de perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo. Nem os reis podem ir ao Paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis.(...)

Levarem os reis consigo ao Paraíso os ladrões, não só não é companhia indecente mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticarem os reinos do mundo, é tanto pelo contrário, que em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao Inferno. (...)

Revista Consultor Jurídico, 8 de maio de 2001, 12h33

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