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Software Livre (II)

Consultor da Conectiva examina as vantagens do Linux (II)

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Fernando Roxo da Motta é geofísico e atualmente trabalha como consultor técnico na área comercial da Conectiva em Curitiba. Para ele, um sistema operacional baseado em código aberto, como o Linux, representa mais do que uma alternativa barata para empresas e usuários. Em sua opinião, isto está ligado à soberania dos países.

Roxo, como é conhecido, exemplifica com um episódio ocorrido em 1986, quando trabalhava como geofísico na Petrobrás, no setor de processamento de dados científicos. Na época, ainda não existia o Linux, lançado em 1991. A certa altura, precisaram de um supercomputador para fazer o processamento dos dados, e a Petrobrás encomendou essa máquina da IBM.

Quando estava tudo certo, a máquina pronta nos Estados Unidos para ser embarcada para o Brasil, os americanos disseram: "Êpa, alto lá!".

A pretexto de preservar a paz mundial e impedir o uso dos supercomputadores para desvendar o ciclo completo do átomo, estabeleceu-se o cartel tecnológico e proibiu-se o acesso aos equipamentos.

Tanto é que depois, já no governo Collor, o equipamento veio. Mas com o compromisso de que só se faria pesquisas sobre petróleo. "Nós termos acesso a essa tecnologia é perigoso para eles, e eles terem acesso a essa tecnologia não representa nenhum perigo para nós?", indaga. "Para eles, todos são iguais perante a lei, desde que todos não incluam a gente, nós, o terceiro mundo".

Hoje, quando perguntado sobre as características do Linux que mais o fascinam, Roxo não tem dúvidas: "Um dos aspectos mais importantes do Linux é a liberdade".

E que "a Internet é uma rua, uma rua que incorpora o mundo inteiro".

Na entrevista abaixo, realizada durante a 1ª Confraternização Nacional de GUs (Grupos de Usuários Linux) Open Beach 2001, 7 a 9 de dezembro em Florianópolis/SC, Fernando Roxo fala sobre soberania, Conectiva, Windows, Linux, segurança, spam e a valorização da informação.

Consultor Jurídico - De que forma o Linux pode ajudar os países a ampliar sua soberania?

Fernando Roxo da Motta - O Linux, por ser aberto, permite que qualquer um tenha acesso a essa tecnologia, sem restrição alguma. É distribuído no mundo todo e até os brasileiros participam do seu desenvolvimento. O Marcelo Tosatti é um exemplo claro disso. Ele é o atual mantenedor mundial do kernel (N.E. - núcleo) de produção do Linux. E é um garoto de 18 anos, um profissional excelente, maduro e competente, e esse jovem de Curitiba faz parte da equipe de produção e desenvolvimento da Conectiva.

Esse tipo de software insere a inteligência da comunidade tecnológica brasileira no mundo internacional de tecnologia de ponta. Deixamos de ser meros usuários e passamos a ser desenvolvedores. E o que é melhor: sem que ninguém tenha a possibilidade de dizer que é perigoso para "eles", quem quer que sejam, a gente ter acesso a essa tecnologia. Então, o aspecto da liberdade, o aspecto até mesmo de nacionalidade, é extremamente importante e normalmente negligenciado.

Na hora de falar no aspecto soberania, nós geeks, nós nerds não explicitamos isso, não é que não tenhamos isso claro, para nós é uma coisa natural. Não é claro para a gente que, para as outras pessoas, essa naturalidade do acesso à tecnologia é algo obscuro. As fronteiras são irrelevantes, porque há o aspecto da cooperação, você tem o conhecimento técnico e científico sendo desenvolvido e compartilhado como sempre foi historicamente.

ConJur - A exigência do conhecimento do inglês não seria mais uma barreira de acesso a essa tecnologia ou a esse conhecimento?

Roxo - O inglês é utilizado - a língua franca, vamos dizer assim - para troca internacional de informações de tecnologia, mas não há nenhum impedimento na língua portuguesa para essa mesma troca. Dentro da Conectiva, trabalhamos o tempo todo falando em português, temos alguns profissionais estrangeiros trabalhando conosco e uma das coisas que fazem quando vêm para cá é um curso de português.

Durante o tempo em que têm alguma dificuldade de se expressar em português, conversamos com eles em inglês, mas só neste caso. Fora isso, entre nós, conversamos o tempo todo em português e transmitimos noções, idéias e conceitos de tecnologia. Além disso, o fato de você estar se comunicando em inglês não tem nenhuma implicação na sua nacionalidade.

A língua é uma característica muito importante de um povo, mas a nacionalidade é muito mais do que a língua. O simples fato de você beber uma boa cachaça em vez de um uísque envelhecido, ou o fato de você apreciar um maracatu, um coco, um samba, todas essas coisas fazem o colorido da nacionalidade, não é só a língua. Você estabelece um protocolo comum de comunicação - que seja o inglês, não importa - o fato de você estar se comunicando, comunicando as suas idéias em inglês, isso não tem nenhuma implicação na sua nacionalidade.

 é advogado, diretor de Internet do Instituto Brasileiro de Política e Direito da Informática (IBDI), membro suplente do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e responsável pelo site Internet Legal (http://www.internetlegal.com.br).

Revista Consultor Jurídico, 21 de dezembro de 2001, 12h39

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