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Lavagem de dinheiro

Artigo discute a vida de PC Farias, suas contas e o narcotráfico

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Há alguns meses foi lançada uma obra com revelações muito importantes sobre um período que se iniciou em 1989 e ainda não terminou. O autor é Lucas Figueiredo, jornalista. O livro: Morcegos Negros: PC Farias, Collor, Máfias e a história que o Brasil não conheceu.

O autor desvenda, desmistifica e esclarece muitos fatos ocorridos com PC Farias. O relato vai desde sua fuga do Brasil em 1993 e sua captura na Tailândia, passando por uma interessante abordagem acerca das várias equipes que tentaram desvendar sua morte e deságua no principal: a conexão de Paulo César Farias em um grande esquema de lavagem de dinheiro.

Este esquema, muito provavelmente, era o mesmo usado pelos grandes cartéis de droga para a lavagem do dinheiro proveniente do tráfico de entorpecentes.

Qual a rota seguida pelo dinheiro de PC e onde ele se encontra hoje? Estas são as grandes perguntas do livro. Até onde foi possível investigar, foi desvendada, em parte, a grande rota dos dólares de PC Farias.

Em um fluxograma que se encontra na obra, pode-se verificar que o dinheiro circulou por vários países, em contas abertas por testas-de-ferro e empresas de fachada de PC.

O empresário mantinha uma "conta mãe" em Roterdã, Holanda. De lá, o dinheiro foi dividido em várias contas menores em Genebra e Zurique na Suíça e Nova York e Miami nos EUA.

O mais interessante é observar que tanto a "conta-mãe", quanto uma das contas de Nova York, receberam dinheiro de mafiosos narcotraficantes, pois a limpeza dos recursos de ambos era realizada conjuntamente.

Ali reside a conexão de PC com a lavagem de dinheiro derivado do tráfico de drogas. Além destas contas já citadas, o empresário alagoano, mantinha contas em Montevidéu no Uruguai, Londres na Inglaterra e São Paulo.

A conta localizada no Brasil também recebia dinheiro de narcotraficantes. O esquema foi desmembrado principalmente em função do trabalho da polícia italiana e pela Procuradoria da República de Turim, com ajuda da Polícia Federal brasileira.

A Itália chegou a um sistema de investigação, acusação e julgamento muito eficiente. A cooperação da polícia investigativa do departamento antimáfia, juntamente com a Procuradoria da República italiana, foi decisiva para a captura de vários mafiosos, quebra de rotas de tráfico européias e desmembramento da rota do dinheiro proveniente destes ilícitos.

O Brasil, infelizmente, não se mostrou suficientemente ágil para conseguir repatriar parte do dinheiro de PC, deixando prescrever vários ilícitos.

Vale ressaltar que até poucos anos atrás não havia lei brasileira que disciplinasse a lavagem de dinheiro como crime. Além disto, a Polícia Federal encontrou inúmeros obstáculos quando tentou investigar o caso de PC e sua relação com a lavagem de dinheiro realizada pelos narcotraficantes.

Os problemas foram inúmeros, desde a burocracia que acarretou a demora de quase um ano para a tradução oficial de um documento vindo da Suíça, até uma possível rixa entre a Procuradoria da República e a PF.

Ao contrário, em outros países, conforme mostra Lucas Figueiredo, como o Canadá, Estados Unidos e Itália, a cooperação é grande e dá resultados.

Um grande exemplo foi o caso a quebra da rede de lavagem de dinheiro e tráfico de entorpecentes da família Caruana, integrantes da Cosa Nostra, Máfia da Sicília.

Se o Brasil deseja enfrentar o problema do tráfico e suas conseqüências, deve, além de tipificar eficientemente os crimes como o de lavagem de dinheiro; firmar acordos de cooperação com outros países para que se agilizem as investigações.

Desta maneira, pode-se rastrear de forma mais eficiente as rotas de tráfico, lavagem e localização dos traficantes, chegando-se a uma punição efetiva dos responsáveis.

O livro de Lucas Figueiredo é muito interessante, especialmente, para aqueles que se interessam pelo assunto e desejam entender melhor o envolvimento de PC com a `Ndrangheta - Máfia da Calábria, as investigações nacionais e internacionais, as rotas de lavagem de dinheiro transnacionais, sonegação e evasão de divisas, a máfia invisível, a história da morte de PC Farias e principalmente a ofensiva internacional que conseguiu prender os grandes líderes do narcotráfico nos últimos anos.

Ao final teremos uma certeza: apesar da morte de PC, ainda existe muito para ser descoberto.

 é advogado em Brasília

Revista Consultor Jurídico, 8 de dezembro de 2000, 0h00

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