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A questão econômica

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2 - A QUESTÃO ECONÔMICA:

a) Uma nova visão da economia. Crítica à economia moderna.

A origem da economia dita moderna surgiu inspirada nos modelos newtonianos, ou seja, já a partir daqueles tempos, em torno do século XVIII, a economia foi apresentada basicamente através de modelos matemáticos (números, pesos e medidas), sendo postos de lado os argumentos e palavras.

Sob tal suporte de inspiração puramente mecânica, foram desenvolvidos os conceitos liberais da oferta e da procura e da "mão invisível". De acordo com a primeira arquitetura conceitual, à medida que se aumenta a oferta, diminuem-se os preços dos produtos; se a procura aumentar, os preços tendem a ser crescentes; diminuindo a procura, os preços reduziriam. Já o conceito elaborado por Adam Smith, de que o mercado ajusta-se por si mesmo, sem necessidade de qualquer intervenção, na medida em que consumidores e produtores, buscando seus interesses pessoais, equilibram o sistema, é o que foi chamado de "mão invisível" (ou Mão de Deus).

Se esses dogmas valeram em um determinado período da história, hoje, com os monopólios e oligopólios nacionais e internacionais, eles são elementos componentes de discursos ultrapassados e suspeitos. É sabido que o consumidor, na maioria das vezes, vê-se cativo de ofertas que encontram-se, direta ou indiretamente, em um sistema oligopolizado. Isto demonstra que os conceitos mecânicos de oferta e procura e de ajuste automático do mercado, ao contrário do que apregoam seus ferrenhos defensores, não funcionam no vigente modelo econômico mundial, como se dois mais dois fossem igual a quatro. Isto porque, no mercado, a relação entre produtor e consumidor está essencialmente assimétrica, com raras exceções em que aquelas equações tradicionais quase-mágicas funcionam a contento.

A atual ciência econômica, ao dimensionar a riqueza, nunca leva em conta se os recursos utilizados são renováveis ou não. Ao calcular o PIB (Produto Interno Bruto) de uma economia, chega-se ao absurdo de acrescentar, como soma de produção, os gastos com saúde, acidentes (inclusive os ecológicos), etc., itens que, na realidade, deveriam ser deduzidos na produção de riqueza.

Em contraposição às teorias econômicas tradicionais, uma nova corrente, capitaneada pela economista inglesa Hazel Hendersen, acredita que as grandes causas da inflação, e, conseqüentemente, da pobreza e da miséria, são a crescente utilização de matérias-primas e energias não-renováveis, cujas reservas estão cada vez mais inacessíveis, juntamente com a enormidade dos custos sociais provocados pelo crescimento ilimitado e desordenado da economia. Estes custos e ambientais são decorrentes da "transferência" que as empresas fazem ao meio ambiente e à sociedade, sem registrar tais perdas em seus balanços. Então, a responsabilidade de preservação e recuperação ambiental, controle da criminalidade, assistência à saúde, custo com litígio (ações eminentemente não-produtivas e decorrentes da antes referida ... "transferência") ficam a cargo dos governos e, desta forma, penalizam toda a sociedade, pois os recursos auferidos pelos Estados para tais empreedimentos não-produtivos são os impostos, cobrados de toda a sociedade.

b) Outras críticas ao pensamento econômico moderno.

O pensamento econômico ortodoxo trabalha com o conceito de crescimento contínuo e ilimitado, sem considerar que vivemos em um mundo finito, onde as coisas são necessariamente limitadas. Herman Daly estabeleceu um espectro de fins e meios, que são os seguintes:

1.º) Meios Fundamentais (matéria-prima de baixa entropia).

2.º) Meios Intermediários (estoques de artefatos, força de trabalho).

3.º) Fins Intermediários (saúde, educação, etc.).

4.º) Fim Supremo (o que é intrinsicamente bom, cuja busca é intermediada pela Ética em direção à Religião).

A economia política, atuando fundamentalmente entre os meios e fins intermediários, perde a percepção do uso sábio dos Meios Fundamentais em prol do atingimento do Fim Supremo. Nesta perspectiva, Daly detecta uma insanável contradição da economia chamada do crescimento, qual seja, a de, por um lado, ser extremamente materialista ao ignorar o Fim Supremo e a Ética, e, de outro, ser insuficientemente materialista ao ignorar os Meios Fundamentais, não perquirindo a absoluta limitação e escassez dos recursos naturais não-renováveis.

Hoje, impera a economia simbólica, com as empresas jogando com números, dissociando-se da economia real, onde o dinheiro deveria mover-se de acordo com as atividades de produção. Apesar dessa visão irreal dos economistas tradicionais, não podem eles revogar a verdade irretorqüível de que a riqueza, ao ser dimensionada em unidades de valor, não tem anulada sua dimensão física. E esta massa física que incorpora o valor necessita estar em consonância com um estado equilibrado na natureza.

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Revista Consultor Jurídico, 27 de fevereiro de 1998, 0h00

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